Duas maçãs apenas…

duas_macas(Que me perdoem os meus amigos que vêm ao blog, o facto de ter publicado este texto ontem no facebook e não aqui…
Confesso que era tarde na noite… e escrevi diretamente… apesar das correções necessárias a que não resisto, evidentemente, no gozo de escrever emoções, de as retocar aqui e ali, mesmo que sem muito tempo, ou a conta-lo em jeito decrescente.
Mas fui muito para além da hora, ficando, ficando por ali, agarrada naquela espécie de frenesi…
… e assim, noite dentro, rendi-me à preguiça, claro, de abrir o blog, de clicar mais aqui e ali…
Mas partilho hoje neste espaço. Mera questão de fidelidade ao “blogue”… a mim mesma, de certa forma, mas acima de tudo, a quem aqui me acompanha, me dá força e a quem sou grata pela partilha do caminho.
Pronto!…que me perdoem, meus amigos!!!… Obrigada.
Aqui vai o texto…)
 
Hoje, numa vulgar ida às compras a um supermercado perto de casa, à porta, duas miúdas.
Não sei que idade teriam. Sete, nove anos?
Confesso que, já sendo conhecidas por estarem por ali frequentemente pedindo moedas, em tom …rápido, monocórdico, insistente e estrangeirado, levam da parte de quase todos, uma espécie de indiferença.
Quanto a mim, sei que me revolta vê-las e não poder fazer nada de concreto que mude aquela situação, aquele hábito… e entristeço-me por me sentir invadida por dúvidas, cuja resposta ainda não ousei procurar.
Habitualmente não dou. As moedas, claro. E na busca de saber se têm fome, pergunto se querem pão, tendo já há algum tempo oferecido uma sandes a uma delas.
Não é a primeira vez que me questiono para que usam o dinheiro, a veracidade da história que contam de forma repetitiva e decorada… seis irmãos em dificuldade… e, face às negas, acentuam um ar de miséria desenvergonhada,  palavras em calão para quem não se apieda, entrecortadas com corridas e risos de graça ou escárnio, numa manifestação de revolta ou imediata distração, gestos que, afinal vêm de crianças criadas à solta e que nem devem conhecer escola.
 
Mas hoje, na pressa, já noite, face à habitual investida e tendo já visto dois sacos de pão encostados à parede, fechados, à espera, dei-lhes eu mesma essa espécie de corrida.
Não. Não dou moedas! … e segui caminho, apressada nas compras que se fazia tarde.
Comigo, o meu filho mais novo, já homem.
 
À saída do supermercado, parámos junto à maquina multibanco, com os três sacos cheios do essencial…
De novo, a investida das miúdas, impertinentes, rápidas e insistentes nas moedas que não queria dar-lhes… Repeti com voz de desagrado que não dava moedas…
… e a mais pequena,  cujo loirito do cabelo fazia sobressair o sujo, perguntou, mantendo o tom rápido, mais apressado que  a minha aparente pressa na pressa de ser ainda atendida: – e comida, dá?
 
Parei por dentro, apesar de parada. Senti um baque. Aqueles baques que estão lá, mas que remetemos para os gestos de defesa a que nos habituamos, não acreditando em muito do que já acontece, ou reação escudo, à impossibilidade de colmatar todas as lacunas, todos os males, todas as dificuldades que sabemos aí em cada esquina, tantas vezes ali mesmo ao nosso lado…
… e no baque, atrapalhada com a minha inventada e imposta indiferença, com o meu ar durão assertivo, do “não dar moedas”, olhei a pequena… olhei-a como se o tempo parasse…. cresceu-me outro rebaque de dúvida… ainda balbuciei, já trémula por dentro que não tinha nada preparado nem de jeito para lhe dar…
 
A pequenita,  mantendo a pressa da conquista que periclitava, nesse desconfiar ou saber da experiencia de quem precisa de qualquer maneira e de qualquer coisa, perguntou á queima roupa.  E maçãs? Tem maçãs???
 
De facto, dos sacos cheios, pão à vista… e essencialmente legumes e fruta variada.
Maçãs, nada que se visse… mas, bem lá no fundo de algum deles,  sabia eu que estava um saco delas, fresquinhas, aparentemente estaladiças!
Não resisti. Maçãs. Podiam ser maçãs. E num gesto imediato, desatei a procurar o pequeno saco delas, para o rasgar e tirar uma para cada uma.
 
Agarraram-nas. Olhei mais intensamente para as crianças e ousei lembrar-lhes, acreditando que fugiriam de seguida de mim, obtida a conquista, que deveriam lavá-las antes de as comerem… e qual não foi o meu espanto quando me perguntou a loirita: – Porque é que se têm que lavar as maçãs?
 
De facto estavam brilhantes e vermelhas, quase imaculadas de brilho…  e continuei a ousar dizer, num gesto mais próximo, apontando a maçã e depois a sua barriguita, que as cascas, parecendo limpinhas poderiam ter “bichinhos” que lhes fizesse  mal à barriga.
Não me gozaram, nem fugiram, nem correram…
…e foi daí que, estranhamente me subiu um soluço incontrolado ao vê-las irem à casa de banho ali perto lavar as maças que começaram a comer com evidente regalo!…
 
Fiquei tão perturbada que, ao seu regresso quase imediato, acrescentei à dádiva, um dos pacotes de queijo fatiado, para que usassem por exemplo no pão dos sacos que permaneciam silenciosamente encostados à parede, à espera… e acrescentei ainda dois iogurtes que pudessem comer ali mesmo, se quisessem.
Enquanto isso passou um jovem pouco mais velho que o meu filho e que lhes entregou espontaneamente e com um sorriso meigo e divertido, um pack com dois apetitosos queques…
 
Com toda esta agitação e comoção  interior foi o meu filho que tez as operações do multibanco…
…por dentro ecoavam-me estranhamente, as corridas e os risos das miúdas, regressados, entrecortados pelo crraccc das dentadas nas maçãs que nunca pensei poderem constituir semelhante delícia…
 
Duas maças apenas… um nó na garganta… um desespero de constatação e revolta pela sociedade em que vivemos e que, seja de que forma for, temos mesmo que mudar. Temos!!!
 
Duas maçãs apenas… há tanto para fazermos e um vazio de esperança de conseguirmos o essencial…
Isabel Maia Jácome
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6 respostas a Duas maçãs apenas…

  1. Vicente diz:

    Que bem escrito e que gesto de grande bondade e generosidade Isabel. Muitas vezes temos hesitações em dar por uma miríade de razões e nem reparamos que mesmo que as pessoas não sejam tão genuínas, precisam mais do que nós. Bem-haja

    • … e o que acho interessante Manuel é que me toca precisamente num dos pontos fulcrais da minha reflexão… a questão de cada vez haver menos genuinidade nas pessoas, nas manifestações, e até na expressão de dor, ou de carência… o que nos torna cépticos… e o cepticismo é dos sentimentos mais amargos que tenho vindo a sentir… e detesto ser amarga… sobretudo porque tenho consciência de que a amargura se contagia, se não tivermos cuidado de procurar os anticorpos necessários para a combater, para lhe resistir e para a ultrapassar… e…é mesmo importante ter a consciência de que, em muitos aspectos e em muito para além das questões de pobreza material, “mesmo que as pessoas não sejam tão genuínas, precisam mais do que nós”!!!
      Obrigada Manuel… por “tocar sempre no ponto”.
      Beijinho muito amigo,
      Isabel

  2. Claro que ” temos mesmo de mudar, Isabel! Temos de acabar com aquela ideia preconcebida de que as crianças estão a pedir obrigadas pelos pais para que estes tenham moedas para o alcool e droga; claro que as crianças pedem obrigadas pelos pais, mas muitas vezes é para que estes tenham dinheiro para alimentarem os filhos; como as pessoas são mais sensíveis às crianças eles mandam-nas pedir. Um dia eu ia de passeio com o meu filho, marido e netinhos; parámos para fazer um lanche, por acaso num estabelecimento de Hamburgers; à porta estava um miudinho com aproximadamente !0 anos. Do outro lado da estrada estava uma caravana e muitas
    crianças brincando à volta. O meu filho e marido disseram logo para eu não dar nada, pois seria para os pais; não me importei; fui junto do miúdo e perguntei se queria um hamburger; ele acenou afirmativamente sem levantar os olhinhos tristes. Fui ao balcão e pedi um hamburger e um sumo; vim para junto dele e dei-lho; num ápice ele o comeu e bebeu o sumo; continuou lá na sua missão; as pessoas entravam e saíam sem sequer reparar naquela criança suja e triste. Os meus netinhos que agora têm 6 e 4 anos ( tinham menos um nessa altura, nem se aperceberam, mas o meu marido e filho deram-me razão e ficaram satisfeitos depois que viram que aquele miúdo tinha, pelo menos ” enganado o estmago ” como se costuma dizer. Fiquei contente por ter agido assim e sempre que olhava para os meus netos lembrava-me do miúdo. Sabe, Isabel, quando vejo crianças assim, pergunto sempre se querem comer. Se as moedas são ou não para o vício dos pais, não sei, mas também não me interessa; o que me importa naquele momento é o sofrimento dessas crianças. Obrigada, amiga, por teres colocado aqui este teu depoimento, pois é importante que reflitamos um pouco mais nas misérias humanas, principalmente em se tratando de crianças. Um beijinho e até sempre!
    Emília .

    • Querida Emília
      Esta partilha que me deu tanto prazer escrever, como exercício de reflexão, de consciencialização de emoções e da respectiva tradução por palavras, exercício de escrita que sabem ser tão importante para mim, fez-me reflectir ainda mais, após a maioria dos comentários que li, sobretudo no facebook, onde o acesso é mais fácil…
      Não está em causa aqui, o gesto de dar… mas todas as interrogações que me coloco à volta deste momento, desta sociedade em que vivemos, desta nossa incapacidade de contornar/confrontar e encontrar respostas… de mudar alguma coisa, começando por uma mudança mais efectiva em nós próprios, porque o aparente “gesto”, gabado por todos espontaneamente e que agradeço, devo dizer que o considero de uma insuficiência dolorosa.
      O gesto foi a minha forma de atabalhoadamente querer enganar-me um pouco… tapar o sol com a peneira, vendo como procuro um lado bom numa miríade de insuficiências e desgraças socias e humanas.
      Precisamos por-nos em causa.
      É o que faço… foi o que fiz, mais ou menos subtilmente ao longo de tão extenso texto…
      O que é importante para mim neste texto é a consciência de que a carência destas crianças vai muito além da carência alimentar…
      …e doem-me os juízos de valor que inconscientemente fazemos ou construimos por defesa, precisamente porque de alguma forma nos defendemos perante a nossa incapacidade de contornar o sistema.
      Acabamos por nos limitar a encontrar uma paz podre e momentânea… e nem uma pseudo felicidade pode resistir a esta consciência, porque a realidade é dura demais e o novelo desta sociedade em que vivemos, não permite encontrar realmente uma resposta adequada a este tipo de situações que se propagam de forma epidémica.
      Mas muito obrigada Emília… é sempre bom trocar estas reflexões.
      Beijinho amigo e grato… Isabel Maia Jácome

  3. Tem toda a razão, Isabel! ” A carência destas crianças vai muito além da carência alimentar “. Há crianças que vivem situações dramáticas e alimentos têm de sobra…brinquedos e tecnologias por todo o lado. Sentimo-nos impotentes perante o tipo de sociedade em que vivemos e é preciso com urgência uma mudança de mentalidades, começando, com bem diz por nós. Nem sempre fazemos o que devemos e podemos.e o que fazemos é, sim uma ” insuficiência dolorosa ” , querida amiga. Sei que adora escrever e sei também que adoro lê-la e poder consigo reflectir nos temas que nos coloca, sempre pertinentes e que nos levam a pensar. Pensar só não chega,…é preciso agir. Obrigada, Isabel e cá fico… sempre atenta aos seus escritos. Não se esqueça de aparecer por cá onde tem amigos que necessitam do que escreve. Boa noite e um grande beijinho.
    Emília

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