Ah, início de manhã!…

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Indubitavelmente, esta é uma das horas do dia em que sinto a possibilidade de temperança.
 
O sol aquece, ainda ameno, a fazer brilhar constelações de gotículas na relva e arbustos à minha volta.
 
O lago, sereno, brilha também e dança, entre o som da brisa que o afaga em pequenas refregas e o silêncio da quietude que momentaneamente o espelha. Reflecte-se nele o céu, azul intenso, límpido, profundo, tranquilo, imenso… e os pássaros sobrevoam água e terra, com destino certo. 
 
Sente-se neles uma segurança que nos interpela; uma direcção tranquila, uma liberdade espontânea, pura.
 
Tudo parece simples, no imenso complexo das cores e sons  e cheiros… e a própria tranquilidade exala o perfume da harmonia que me pede que fique, que me deixe, que me sinta, que me entregue e deleite.
 
Ao longe, o som bucólico de um rebanho que passa, na outra margem… e, para lá dela, a extensão dos sobreiros de que sinto saudade  e falta e a quem peço conselhos, silenciosa, contemplativa e meiga. É que os sinto abraçarem-me na sua tranquilidade antiga, no seu saber sereno do tempo que passa e que deles transpira a certeza de que, um dia, com certeza (mesmo dizendo tantas vezes que não tenho certezas), saberemos a nossa experiência mais profunda e encontraremos no nosso saber, a capacidade de nos despirmos do supérfluo, para sermos toda a nossa natureza.
 
Fico aqui, quieta. Permaneço mais um pouco enquanto os outros dormem, ainda.
 
O sol aquece-me pele e alma e, neste silêncio que me sabe  a pausa, escuto tanto do que preciso… encontro verdades profundas… e encontro-me comigo também. Preciso.
 
Há quase uma comunhão entre o que me é mais íntimo e o que me cerca…
 
…e  o momento estende-se… e sinto-me como se voasse, mesmo quieta!…
 
…ah voo planado ao sabor de correntes… envolvência mística de tão física, também, nesta certeza do momento, neste viver presente…
 
E assim me permito mais um pouco e me encanto e surpreendo… surpresa antiga do novo, sempre presente, neste espaço que me parece fiel de tão antigo, seja no que me rodeia  e cresce e vive  e permanece, seja neste sentimento profundo, desta necessidade de me permitir sempre… e deste encontro, sempre novo!
 
Quero  e preciso destes momentos que me acontecem cada vez mais longe do papel e da tinta… e me são tão queridos e importantes!
 
Coabita em mim tranquilidade e agitação entusiasta… frenesi que estes encontros descobrem… desassossego de quem procura ainda e sempre… e sabe o quanto, mais do que sucessivos encontros, são pontos de partida!!!…
 
Estou sempre de partida. Viajo sempre, mais ou menos segura. E a cada viagem, mais ou menos longa, um novo porto. Porto de abrigo. Momento de pausa, onde me concerto, repenso, reponho, reabasteço.
 
 
Depois… parto de novo, outra e outra e outra vez. Sempre.
 
Hoje e aqui, agora, reponho na tinta,  a energia  que necessito e me é dada nestes momentos de silêncio.
 
Energia que o bulício da vida de cada dia parece querer dispersar, carregado-a de ruídos loucos, ainda, mas que progressivamente consigo diminuir, decidida nas opções e nas implicações dos ganhos  e perdas que possam abarcar.
 
E assim, cada vez mais me parece possível,  a sintonia, a definição… mesmo nas dúvidas, na procura e no muito que involuntariamente se encripta.
 
Cada vez mais, descubro e aceito a minha linguagem de vida, aquela com que devagar me encontro, decidida, cheia de vontade, entusiasmo, espanto, crença, flexibilidade…
 
Diferente e  a mesma, ainda me agito. Mas cada vez menos me importo… como se finalmente vislumbre  a possibilidade de aceitação, na multiplicidade me que me habita.
 
Aos outros, tantos de quem gosto e que são parte da minha vida,  cuja opinião tantas vezes me preocupa, procuro aceitá-los no seu melhor. A eles, a liberdade de partilharem o seu caminho com que me cruzo, invariavelmente e que partilho com amor. Mas de que progressivamente, por vezes me liberto, no que possam inadvertida e involuntariamente ensurdecer  os meus silêncios. 
 
Ponto de partida?
 
Parto sempre, repito.
 
É o que me caracteriza. É o que me permite ser e descobrir cada vez mais profundamente quem sou. O que me permite e a qualquer um de nós, acredito, dar-mo-nos de forma mais verdadeira, inteira e convicta… porque, se por qualquer espécie de contradição somos seres sozinhos, não vivemos sem os outros. Não somos nada sem estarmos em conjunto de forma biunívoca!!!
 
À minha volta o dia cresce…
 
… escuto a relva, crepitante, ainda húmida e fresca que no seu conjunto emite uma melodia que me soa a canto mágico, vivo, em diálogo de harmonia com a água que, mais lá em baixo, emite sons ritmados e suaves.
 
Já passou um barco. O sino toca na vila e chega-me, longínquo, como que  a relembrar-me a vida humana acordada também nos outros.
 
Vou caminhar.
 
Hoje é mais um dia que agradeço, nesta minha vontade de me aceitar, escutar, harmonizar, compreender.
 
Possa assim dar mais e melhor de mim, a cada dia!
 
Obrigada ao meu marido, à minha família, amigos… à vida!
 
Sempre.
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8 respostas a Ah, início de manhã!…

  1. Célia Coimbra diz:

    Querida Amiga,

    Não tenho grande jeito para estas “coisas” de blogues, direi mesmo, nenhum…
    Belíssimo texto!… E obrigada por me permitires entrar no teu “eu”…

    Beijinho e saudades

    • Querida Célia

      …os blogues são de facto especiais. Permitem uma partilha mais íntima, apesar dos riscos maiores, creio, de darmos acesso a quem queremos e a quem não queremos… ou nem sequer sabemos.
      Talvez o FB possa parecer mais selectivo, mais restrito aos “amigos”. Mas não tenho certezas. Apenas sei que tenho saudades de manter a minha fidelidade às pessoas dos blogues a que me dediquei e com quem criei amizades que sinto verdadeiras. Os donos desses blogues, sabem quem são…
      Obrigada por teres vindo aqui e por te dares ao trabalho de comentar, apesar de dizeres que “não tens grande jeito” para eles.
      No que me toca, gostei e fiquei contente por te sentir aqui a partilhar este pedaço de mim que, felizmente hoje, consegui.
      Um beijinho grato e muito amigo
      SEMPRE,
      Isabel

  2. Vicente diz:

    Olá Isabel,
    Bem retornada:-)
    Belo título, a que vou dar mais amplitude. Gostei muito da forma alegre e descansada como foi escrito.
    Temos, porém, pela frente, um novo ano de trabalho que recomeça. Com calor e frio, com alegrias e tristezas, com dificuldades grandes que vão vir para os Portugueses: em resumo, tudo para que o início de cada manhã possa não ser tão “pinky” como desejaríamos.
    E o que fazer? Estarmos sempre a queixar-nos, a criticar e a atormentar-nos?
    Fazer revoluções e política? Ter depressões? Darmo-nos mal com quem nos rodeia e criarmos quer em casa ou no trabalho, um ambiente tenso e progressivamente insuportável?
    Difícil dar soluções, mas nenhuma destas me parece a ideal.
    Duas ou três dicas:
    – ler e escrever
    – rezar
    – NÃO ouvir, ler, falar com quem nos cause desparazer e refiro-me a este doentio mergulho nos telejornais, na leitura de jornais ou revistas ou em conversas de café, ou de trabalho ou de família peder tempo a discorrer sobre decisões que NÃO ESTÃO ao nosso alcance.
    Parece difícil, sim. Custa ao princípio, descolar, despegar e manter-nos como que afastados quais ” bons sauvages” ignorantes do mundo, naquilo que não é essencial: sim, seremos um pouco postos de parte.
    Mas traz paz, benefícios morais e mentais e aí sim: que belo pode ser o início de cada manhã:-)

    • Olá!!!!
      …nem imagina como tenho pensado em dizer-lhe tanto do que me disse aqui…
      … e que se dane, o acharem que possa estar um pouco à margem, porque, de facto, prefiro, “à margem”, mas mais tranquila e mais coerente, congruente… o que não quer dizer irrealista… e será isso estar “à margem?” Não precisamos de cada vez maior número de pessoas que queiram mudar comportamentos e colocarem-se “à margem” desta sociedade cada vez mais doente e doentia, para podermos encontrar força para ajudar outros e outros que virão progressivamente, na medida de quem os/nos cativa, para novos tipos de vida???
      … daí a importância de “rezar”… (como gostaria de fazê-lo de forma séria e inteira… como gostaria de aprender a fazê-lo cada vez mais e melhor, não como um mero recitar de palavras, mas como uma postura de vida, de alegira, de procura de força, entusiasmo, agradecimento, humildade… PROCURA, PROCURA, PROCURA!!!… ou de aprender a fazê-lo, simplesmente, de forma a descobrir mais e melhor sobre nós e a forma de podermos intervir, com a nossa modesta e humilde capacidade…
      … mas Manuel, meu amigo… sem nos “apoucarmos”, como me costumava dizer… porque quero acreditar que mesmo que pouco, vale a pena FAZER… e acreditar, ou lutar por acreditar a cada dia que nasce que vamos, pelo menos, conseguir chegar ao fim desse dia sem que tenha sido apenas mais um dia!
      Obrigada meu Amigo. Conto SEMPRE consigo!!!
      Beijinho
      Isabel

  3. Vicente diz:

    Olá Isabel,
    Hoje fiquei em casa, misto a trabalhar e a descansar. Estou farto de sol e calor e praias.
    Muito obrigado por este seu texto tão querido e amigo.
    Tenho muitas coisas pela frente para fazer, difíceis, no estrangeiro, em línguas diferentes que domino mas que cansam, porque se tem que switch the mode, ou seja pensar que os outros são preguiçosos e não aprendem o português e até acham natural que eu fale e escreva na língua deles.
    Mas apetecia-me que entendessem os sons e os tons do que digo na língua pátria, o levantar do sobrolho, o modo de olhar, de sorrir ou não , com sarcasmo ou ironia, ou desacordo….quase nunca se consegue….e vem-me a preguiça de um relatório de alta responsabilidade em francês, que prometi fazer hoje, mas que tlvez só faça amanhã.
    A desculpa de Agosto, o mês das férias, ninguém está, o calor…é um bom alibi.
    Eu sou mesmo avesso ao muito calor, sofro imenso…diminuem-se-me s faculdades e fico no tricot dos centros de dia, parado, a olhar para nada…ahahahaah…visão terrífica.
    Promete que vai para o mesmo lar do que eu? Jure!
    Assim podemos conversar, dançar, ler e comentar, escrever,,,aí já com novas regras…ditando directamente para um gravador em cada quarto…ainda que com uma voz fininha, baixinho, dôce…depois vem a editora e transcreve para um texto e nós, enquanto tivermos alento, iremos revendo as provas.
    Tenho que escrever ao Luis Bernardo: tenho tanto para lhe perguntar. Há tanta gente interessante que já lá está, comparada com esta de cá que é chata e sem graça.
    um beijo amigo aqui do Lar de Santa Cova de Penaguiães….ahahaah

    • Meu querido Vicente

      Pensando no lado bom das coisas… que bom ficar em casa nessa mistura de trabalho/descanso que normalmente tem mais frutos do que parece, enquanto o dia dura, mas que, muitas vezes, depois, analisados os resultados com alguma flexibilidade, nos mostra que foi bem mais produtivo do que nos pareceu… é que temos tanto medo da palavra “preguiça” que muitas vezes a atribuímos levianamente, à simples necessidade, ou natural apelo do corpo e da alma para o descanso… Caramba, precisamos também, não acha???
      Eu preciso…, mas também sou bastante crítica e reticente e exigente… a achar sempre que fiz pouco face ao que devia e queria e precisava… enfim, tolices!

      Obrigada eu, por me acompanhar e me dar tanta força e alento, mesmo quando estou mais arredia, embrulhada, entupida, obnubilada… e sorrio aos seus “empurrões”, incentivos, ânimos… abanões, porque não?🙂 Sou muito dada à escrita epistolar. É mesmo uma das que mais facilmente adoto, em caso de “crise”!….

      Acredito que nessas suas múltiplas coisas que tem “pela frente para fazer, difíceis, no estrangeiro, em línguas diferentes que domina mas que cansam, porque se tem que switch the mode, ou seja pensar que os outros são preguiçosos e não aprendem o português e até acham natural que eu fale e escreva na língua deles” (…) não seja “pera doce”!… …é tão melhor quando, os simples gestos, a nossa linguagem corporal, se acrescenta e completa à necessária e muitas vezes burocrática linguagem das palavras, nomeadamente nesse seu mundo de negócios… não me imagino!… mas pense bem: e quantas vezes, falando com os seus compatriotas, e até mesmo familiares e amigos, nem sempre o entendem, ou quantas vezes fogem a entendê-lo, na necessidade de cegueira e surdez, na fuga ao que não querem, ou tanto receiam?… isso não acaba por ser mais difícil ainda??? Lol… desculpe, mas não resisti a procurar que visse outro lado que, de certeza vê, e muito bem, mas, quando se fala em trabalho e nessa maldita “preguiça”, tudo nos passa pelas “emoções”… e tudo serve para alargar as dificuldades que não nos apetecem enfrentar… e mais… tem razão!… porque línguas e culturas diferentes são um verdadeiro atentado a quem se sente cansado, embora para si, acredito que, no fundo, seja mais um desafio sempre, com certeza!!!! ;)…

      … quase a finalizar, eu amigo… acho que, mesmo eu, que raramente prometo, entusiasticamente lhe prometo ou “juro” que vou para o mesmo lar em que se inscrever!
      Estou mesmo a imaginar o que disse: e acredito que vamos mesmo desforrarmo-nos, com a possibilidade de “conversar, dançar, ler e comentar, escrever,,, aí já com novas regras… ditando directamente para um gravador em cada quarto… ainda que com uma voz fininha, baixinho, dôce… depois vem a editora e transcreve para um texto e nós, enquanto tivermos alento, iremos revendo as provas.”—
      …Acho mesmo uma ideia deliciosa!!! e vamos produzir imenso do que eventualmente não tivemos tempo… o Vicente, já sem necessitar de estar de volta do seu esforço em se fazer entender linguística, gestual e expressivamente, com os culturalmente diferentes da nossa expressiva língua e vivência mãe… e eu, com os meus múltiplos “utentes”, também culturalmente diferentes, portugueses ou estrangeiros, a quem procuro incutir saudáveis hábitos mentais e físicos… e mais novas esperanças de promover família, aproveitando os novos rebentos, para mudar hábitos e rever valores e necessidades e capacidades… e ainda mais, todos os afazeres domésticos pessoais e familiares que, graças a Deus me ocupam para lá do tempo que por vezes recruto à força, para me manter acesa nestas minhas questões das palavras que tanto gozo me dão… precisamente porque para mim, são muito mais do que palavras… são pedaços de vida, mesmo não vivida, mas tão importantes para quem gosta simplesmente de escrever, sabe-se lá porquê!!!
      …por isso será um compromisso: Viver até lá, intensamente… e intensamente, quando lá estivermos, incentivando-nos mutuamente para tanto do que gostamos e vamos levar outros a fazer também. Vai ser uma revolução!!!! ALINHO!!!! LOL!!!

      Agora, para finalizar mesmo, por hoje, escreva sim, ao seu primo Luis Bernardo: Pergunte-lhe, escute-o e conte-nos o que de tão importante ele tem para nos dizer. Já lhe disse que acho essas “vossas cartas” uma delícia.

      Um beijo amigo e entusiasmado, aqui de leiria,

      Muito obrigada,
      Sempre,
      Isabel

  4. Vicente diz:

    Olá colega de Mitra…ahahaahah….parce que agora já têm quartos individuais com ar condicionado. É um lar civilizado…ahahaahah

    Fico muito contente com essa notícia até porque se pode jogar à manilha, dominó, bisca lambida e namoriscar decentemente. Houve recentemente um filme sobre este tema muito divertido.

    O Pai de um amigo meu, um homão pois tinha muitos filhos e a prole é muito conhecida públicamente, fazia tapetes de Arraiolos. Eu acho graça àquelas senhoras que põem uma mola ou um alfinete no ombro e por ali passa os fios de lã do tricot ou crochet….ahaahahah

    O que é preciso e o que tem graça na vida é observar-se o que é mais invulgar e não passarmos pelas coisas distraídamente.

    Lá fiz o trabalho a meu e parece que contento dos destinatários, assim me disseram, mas custou para burro e tenho hoje um outro petisco institucional: uma tradução de inglês para a língua pátria de documentos consulares da Embaixada que represento em Portugal.

    Se não estivéssemos na época de prosperidade em que estamos, dava para traduzir a alguém e pagava-lhe um bom fee, mas não só já recebi “la plata” do trabalho, como ja a gastei, e no fudo sei fazer bem.

    Esta eterna hesitação entre o lazer e o trabalho…que grande séca.

    Lá vou voltar ao trabajo…adoro dizer este espanholismo…

    Beijos amigos

    Vicente

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