“Mensagem a Meio da Noite” de Lídia Jorge

 
No blog Casal das letras, encontra-se uma crónica de Lídia Jorge que quero partilhar com quem não teve oportunidade ainda de ler.
Tocou-me profundamente. Comovi-me!
… realmente o que nos estão a fazer à alma!…
Obrigada, Lídia Jorge.
 
«DE LÍDIA JORGE AGUARDÁVAMOS UMA CRÓNICA PROMETIDA PARA ESTE ESPAÇO.  EM VEZ DISSO CHEGOU-NOS “A MEIO DA NOITE” UMA ALARMANTE “MENSAGEM” QUE A ESCRITORA NOS AUTORIZOU A PUBLICAR

MENSAGEM A MEIO DA NOITE

Queridos amigos, tanto que eu queria não vos desiludir, cumprindo a tempo e horas o que vos prometi com solenidade, mas infelizmente irei continuar em falta, e desta vez a culpa traz dupla assinatura pois não é só minha, ainda que não conheça a quem imputá-la. Confuso? Compreenderão se vos disser que ao regressar a Lisboa encontrei a casa assaltada.

Sim, meus amigos, a porta estava entreaberta, como se um estranho outro dono nos esperasse, e a fechadura não havia sido violada. Como explicar? Uma pessoa entra pela casa adiante, com a consciência perfeita do momento, o domínio sobre os maxilares, perfeito, e os músculos dos joelhos, intactos. O coração nem bate um pouco mais, prossegue o seu caminho, tiquetaque, tiquetaque, relógio orgânico habituado a muita coisa, e aí vai ele, inalterado. O coração fala consigo mesmo — Ficou o computador? Ficou. Ficaram as fotografias? Ficaram. Ficou o frigorífico velho? Sim. O passa-discos, também ficou? Que bom. E também ficou o televisor. E ficou o coelhinho de chocolate que me inspirou um conto, há dois anos. E a caneta de rosca, e as rosas de sarapilheira, e o caderno encarnado. Então uma pessoa olha para o caos instalado, a dança dos objetos que andaram de um lado para outro, cruzando-se no espaço, e sente uma espécie de anestesia. Não dá para pensar, só dá para ver. Pois no rebuliço, os pechisbeques voaram para cima da cama, os recibos das finanças foram parar nos portais, as cartas dos amigos ficaram debaixo dos óculos velhos, alguns deles saíram das caixas, e na confusão, de repente, a pessoa descobre que os aros estavam mais do que ultrapassados. Há quanto tempo estariam os óculos guardados no fundo da gaveta agora vazia? Aliás, todas as gavetas estão completamente vazias, e o chão está completamente juncado. Onde colocar os pés? O que estará debaixo do monte das informações bancárias, umas vinte, que parecem ter-se multiplicado por mil? E as moedas canadianas, e os reais desprezados? Que curioso é o bater do nosso coração. Tiquetaque, tiquetaque, sem alteração alguma.

Pois por que não? Há revelações estranhas nesta desarrumação dos objetos. Umas velas que não apareciam há vinte anos ocupam lugar preponderante por cima de cintos e meias. Cuecas velhas que uma pessoa guardou só porque tinham uma ponta de renda, estão largadas sobre o busto esverdeado do Bach. Uma almofada em forma de lagarta cobre uma caixa de vidro de onde terá saído alguma coisa que foi parar dentro de sapatos. Cartas, tesouras, sapatos. E de repente, a vida vem ao nosso encontro e fala do tempo que passa, e da irrelevância dos objetos guardados, como se eles apenas servissem para nos dar recados de que não há recados. Mas neste ponto, meus amigos, eu faço uma pausa.

Pois será que não haverá mesmo recados? Então o que sentirá uma pessoa que se infiltra na casa dos outros para procurar o que não lhe pertence? Será um método de vida? Uma tática de dever? Um exercício de frieza? Um exercício de perversidade? Um dia, o Baptista-Bastos, na boa tradição romântica, chamou ao ladrão de “Senhor Ladrão”, e deu-lhe uns conselhos calmos. Pois também eu, ao regressar a casa e ao sentir que o ladrão deixou aqueles objetos que verdadeiramente mais amo no seu exato lugar, fui assaltada por um sentimento semelhante, uma gratidão inexplicável por esse ladrão que só queria ouro e dinheiro, precisamente o que as pessoas da minha igualha não têm mais em casa, porque não têm em lugar nenhum. E como uma romântica, que a seu tempo leu Os Miseráveis, comecei a pensar no Estado.

Inveterada, imaginei que não foi pessoa quem me assaltou a casa. Imaginei que foi o Estado quem veio pela calada da noite, meteu a chave falsa, rodou-a, silenciosa, o Estado empurrou a porta, o Estado pensou que havia uma fortuna nos lugares onde os cidadãos comuns costumam esconder as fortunas, o Estado enervou-se por só encontrar clips, cotão, recortes de jornais, morraça, e foi-se enfurecendo, foi atirando para o chão tudo o que encontrava na frente, na esperança de que a fortuna do cidadão de súbito saltasse do interior das páginas de um livro. Que ironia. O Estado a procurar ouro e divisas dentro das páginas de um livro. Que ridículo. O Estado cansou-se. O Estado ainda pensou derrubar o candeeiro, mas depois sentiu que havia visitado um cidadão insignificante, e achou que apenas perdera o seu tempo. O Estado sabe o que faz. O Estado abalou a procurar a sua sorte numa casa mais rica. Não falo só no meu Estado, falo também do Estado do visitante. Quando cheguei a este ponto, de súbito o tiquetaque desorganizou-se, os joelhos deram de si, e felizmente que havia um Magnum Clássico no congelador. Ele permitiu, meus amigos, que eu abrisse este computador e vos explicasse por que razão, se acaso não me dispensarem, em face do exposto, de escrever um artigo para o vosso site, irei precisar de um tempo liberto desta presença dúbia que ainda permanece no interior da minha casa. De quem eu tenho pena, se for gente, por quem eu sinto raiva, se for Estado.»

 
Lídia Jorge in Crónica para o Blog Casal das Letras http://www.casaldasletras.com/convidados.html
 

 

 

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9 respostas a “Mensagem a Meio da Noite” de Lídia Jorge

  1. Vicente diz:

    Já conhecia, muito bem escrito, um primor:-)

    • Que bom manter-se “por aqui” apesar de tão longe!
      Faça favor de não me deixar “morrer de saudades”!!!!🙂🙂 :)… embora às vezes mereça morrer um bocadinho pela ausência que às vezes aparento…
      É realmente um texto fantástico este que aqui deixei… e é optimo partilhá-lo com quem já o leu, também!
      Abraço bem forte e faça favor de mandar um pedacinho de sol e calor, porque aqui está realmente frio!
      Sempre,
      Isabel

  2. Querida amiga

    Que neste Natal,
    diante das pessoas que amamos,
    possamos ofertar a elas,
    o melhor presente
    que desejassem receber:
    Nossa vida…
    Nosso carinho…
    Nosso coração.

    Para quem crê na vida,
    Natal se faz a cada dia.
    Que assim seja o Natal
    Em tua vida.

    Aluísio Cavalcante Jr.

  3. Isabel, hoje passo aqui para te deixar um beijinho muito especial , agradecendo todo o carinho que sempre me dedicas. Embora eu ache que Natal deva ser todos os dias e todos os dias devamos abraçar os amigos, não podia deixar de vir cá para te desejar um noite de Natal deveras alegre e com os teus mais queridos todos reunidos à mesa. Não terei cá os meus pais e irmão, pois vivem no Brasil, mas estarão no meu coração e eu no deles.. Que o ano 2013 seja um verdadeiro ano novo, principalmente com uma nova mentalidade em todos nós. É urgente uma mudança e ela passa pelo esforço de cada um de nós. Sê feliz, amiga, não só agora no Natal, mas sempre. BOAS FESTAS e até sempre.
    Emília

    • Querida Emília
      …que boas estas palavras e esta tua presença…
      É de facto tão importante uma nova mentalidade em todos e cada um de nós!… mas acredito que essa mentalidade, essa mudança urgentes, se contagiam em cadeia… e, pela tua presença e força, pelo exemplo que dás do que preconizas, por essa tua congruência… um agradecmento espedial neste Natal.
      Obrigada minha amiga…
      FELIZ NATAL, sempre.
      Beijinho cheio de carinho e reconhecimento,
      Isabel

  4. Joana diz:

    Votos de Feliz Natal e sereno e esperançoso 2013, Isabel.

    Beijinhos

  5. Querida amiga

    Desejo que o Ano Novo
    se transforme em tua vida
    em Dia Novo,
    para que em todo anoitecer
    existam fogos de artifício
    para colorir os céus do teu olhar
    das mais singelas alegrias,
    e a cada amanhecer
    existam sonhos simples
    para dar novos sentidos
    a tua vida.

    Aluísio Cavalcante Jr.

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