A sociedade é feita de pessoas!!! (Dr. Pedro Afonso – Psiquiatra)

Hoje, mais do que nunca é necessário lembrar que  a sociedade é feita de pessoas.
O 25 de Abril foi feito em prol de uma sociedade melhor. É necessário que cada um de nós contribua da forma que melhor saiba e possa…
 
Ao ler este artigo que me foi enviado pelo João Nuno Baptista do blog “Manta de Retalhos”, um jovem que  continuo a admirar e respeitar, lembrei-me que, no dia de hoje, 25 Abril, mais do que nunca precisamos pensar na sociedade de que fazemos parte, com o cuidado de olhar mais para as pessoas do que para os números e estatísticas.
É necessária a Saúde Mental!!!
 
Que a luz prevaleça sobre a escuridão que por vezes nos ensombra.
Abraço para todos,
Isabel
 
Transcrição do artigo do médico psiquiatra Pedro Afonso, publicado no Jornal Público
 
“Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas
esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo
epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da
Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas
perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com
impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência,
urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das
crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens
infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família.
Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença
prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e
produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a
casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma
mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão
cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de
desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.
Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.
E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o
estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.
Pedro Afonso
Médico psiquiatra 
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4 respostas a A sociedade é feita de pessoas!!! (Dr. Pedro Afonso – Psiquiatra)

  1. Maria diz:

    Doutor:
    Gostei muito do seu artigo.
    Tenho 67 anos, um casamento feliz, uma vida estável, 3 filhos, dois casados, 2 netos.
    Devia ser uma pessoa feliz. A verdade é que a minha filha e a minha neta, têm problemas graves.
    A filha, separada do pai da minha neta, está casada com outro. A miúda há um ano que vive com o pai. Agora quer voltar para a mãe.
    Tudo isto lhe deve aparecer, todos os dias, calculo.
    Há vários anos que dependo de calmantes e ansíoliticos. Deixei há pouco de fumar, porque tenho um pequeno quisto no pulmão.
    Volto a dizer, que gostei do seu artigo.
    Entendo o que quer dizer, com a frase:
    “E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o
    estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.”
    Tem toda a razão.
    E acha que outros médicos não sabem que a maioria dos medicamentos que receitam, não são aviados, por falta de dinheiro? Eu sei, doutor: Ou tomam os remédios ou compram comida.
    Deve ser difícil, alguém sensível ser médico.
    Desculpe ter-me alongado. O doutor é jovem, não é?
    Maria

    • Maria… deve ter havido algum equívoco, porque o artigo do Dr Pedro Afonso está aqui publicado neste blog como uma transcrição do jornal o público para onde ele o escreveu… e isso está referido no post. Mas provavelmente não reparou… ou pode, simplesmente ter sentido vontade de lhe responder, ou falar com ele através do meu blog… o que é difícil, porque ele nem sabe que este blog existe, nem quem eu sou… mas é compreensível esse desejo de lhe falar…
      …Numa espécie de “faz de conta”, onde tudo é possível, de forma metafórica que fosse, poderia aproveitar-se para dizer o que se sente, tão cá no fundo… e que nos faz doer… soltar o que questionamos… já que muitas, muitas vezes, queremos tantas respostas que não encontramos!!!
      Pela parte que me toca parece-me que a compreendo e aos difíceis problemas que aqui partilha…
      … fiquei bastante indecisa se haveria de aprovar o seu comentário… mas também não o quiz ignorar. Nem podia.
      O que diz, aquilo a que chama a atenção do texto que leu, é mesmo muito importante… e uma realidade com que muitos médicos e enfermeiros se deparam no dia a dia, sejam jovens ou mais velhos… mas a que não podemaos estar alheios… esta realidade dura da sociedade e a crise que vivemos.
      Porque não experimenta falar com o seu médico… dizer-lhe, se acaso ainda não o fez, aquilo que tanto a preocupa, aquilo que sente? POr vezes, partilhar com tempo o muito que nos preocupa, com alguém que saiba escutar, ajuda muito!!! Encontrar alguém que “compreenda”!…
      É difícil ajudá-la assim, num blog… mas desejo-lhe que fique melhor, que encontre um caminho, um aforma de se sentir menos angustiada, apesar dos problemas inerentes à vida e que tantas vezes parecem ultrapassar-nos em larga escala.
      Força Maria… e desculpe se não encontro as palavras mais adequadas para lhe dar algum alívio e sobretudo por, neste momento, não ser mesmo o Dr Pedro Afonso, com quem metaforicamente ou de verdade, gostaria de falar.
      Um beijinho e força, mesmo!!!
      Sempre,
      Isabel🙂

  2. Bom dia, Isabel!😀

    Já conhecia este belíssimo artigo do Dr. Pedro afonso. Reli-o com muito prazer!
    Deixei-lhe um convite na sua página do Facebook, nas mensagens.
    Enorme abraço!

    Maria João

    • …Não consegui perceber onde vai ser o lançamento… e gostava de ir, se pudesse!… Muito!!!!!!!
      …pode esclarecer-me? É Lisboa?… ou Alentejo? Esclareça-me, por favor!!!!!!!
      De qualquer forma, o que me alegra mesmo, é o facto de publicar. A net pode ser importante, mas para mim, um livro, é um livro!!!… e ver os seus poemas em livro, deve ser fantástico! Parabéns, querida Maria João!!! Fico mesmo muito feliz, por si… e por todos nós!!!!!!!
      Obrigada!🙂🙂🙂
      Beijinho,
      Isabel

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