“Havemos de engordar juntos” – Amor Burguês” José Luís Peixoto

 
 “Havemos de engordar juntos.
 
Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz “cliente seguinte”, estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos.
 
As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento.
 
É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.
 
Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.
 
As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.
 
Havemos de engordar juntos.
 
Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.
 
Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.
 
E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.
 
Nós acreditávamos.
 
Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.” 
 
 José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro, 2012)
Mais uma vez, obrigada João Nuno!!!

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24 respostas a “Havemos de engordar juntos” – Amor Burguês” José Luís Peixoto

  1. João Nuno diz:

    Querida Isabel, obrigado eu pelas demonstrações de afeto, pela presença e por também ser um exemplo de luta e de coragem para mim.
    Como diz José Luís Peixoto, também na amizade havemos de “engordar juntos”:)
    beijinhos

  2. Vicente diz:

    Para se roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade, tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto, não se alcança o coração de alguém com pressa.
    Tem que se aproximar com meias palavras, suavemente, apoderar-se dele aos poucos, com cuidado.
    Não se pode deixar que percebam que ele será roubado, na verdade, teremos que furtá-lo, docemente.
    Conquistar um coração de verdade dá trabalho, requer paciência, é como se fosse tecer uma colcha de retalhos, aplicar uma renda em um vestido, tratar de um jardim, cuidar de uma criança.
    É necessário que seja com destreza, com vontade, com encanto, carinho e sinceridade.
    Para se conquistar um coração definitivamente tem que ter garra e esperteza, mas não falo dessa esperteza que todos conhecem, falo da esperteza de sentimentos, daquela que existe guardada na alma em todos os momentos.
    Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes,
    que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago.
    …e então, quando finalmente esse coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado dele, vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco.
    Uma metade de alguém que será guiada por nós e o nosso coração passará a bater por conta desse outro coração.
    Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com certeza haverá instantes, milhares de instantes de alegria.
    Baterá descompassado muitas vezes e sabe por que?
    Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós.
    Até que um dia, cansado de estar dividido ao meio, esse coração chamará a sua outra parte e alguém por vontade própria, sem que precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará a metade que faltava.
    … e é assim que se rouba um coração, fácil não?
    Pois é, nós só precisaremos roubar uma metade, a outra virá na nossa mão e ficará detectado um roubo então!
    E é só por isso que encontramos tantas pessoas pela vida a fora que dizem que nunca mais conseguiram amar alguém… é simples…é porque elas não possuem mais coração, eles foram roubados, arrancados do seu peito, e somente com um grande amor ela terá um novo coração, afinal de contas, corações são para serem divididos, e com certeza esse grande amor repartirá o dele com você.

    Luís Fernando Veríssimo

    • A minha vontade quando começo a ler este texto é a de dizer que não se roubam corações… mas será que não se roubam mesmo???… precisamente quando, mesmo que inconscientemente, quem é roubado o deseja ser?
      …mas acho o texto uma delícia, Manel. Obrigada
      Beijinho e saudades
      Isabel

  3. Vicente diz:

    Querida Isabel,
    Espero que esteja tudo a correr bem no seu Mestrado e que se sinta realizada.
    Deixei este texto do Luis Fernando Veríssimo que é um dos autores brasileiros contemporâneos que mais aprecio, pela graça e inteligência da sua escrita, e pela coragem com que desafia as “certezas” estabelecidas sobre um pouco de tudo na vida.
    Esta específica mensagem tem o condão de complementar o seu post, recorda-nos um caminho que estamos sempre a tempo de percorrer:-)
    Um beijo amigo

  4. Roubar corações é o prato nosso de cada dia.
    Roubam-se corações como se roubam carteiras e depois as pessoas acham-se apaixonadas…mas um roubo é apenas um momento, tal como essas paixões.
    Uma paixão deverá ser um início de um amor. O coração precisa de ser “engordado” constantemente, com gestos, palavras, olhares, ternuras. Precisa de atenção! Ora isso dá trabalho, carece tempo, vontade e persistência. Coisas que cada vez menos nos são permitidas.
    Logo todo o tempo é sempre tempo de amar. Até na caixa do supermercado…porque não?!

  5. Querida amiga

    Perfeito o texto,
    e fantástica a sua linha de raciocínio.

    Engordar juntos,
    é conviver…
    Ir além dos poemas…
    Driblar a solidão…

    Querida amiga

    Perfeito o roteiro.

    Penso que são as lições,
    tiradas de fatos do presente,
    e o planejamento destas lições,
    a diferença entre
    ensinar e encantar.

    Que a chama da alegria
    esteja sempre acesa em ti.

  6. Joana diz:

    Boa tarde, Isabel

    Que bonito este texto. Gostei mesmo de o ler, e esta frase, tocou-me especialmente: “Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes,
    que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago.”

    Um beijinho, Isabel

  7. Vicente diz:

    Hoje lembrei-me do Mark Twain numa frase que sempre me impressionou. Diz ele: “A bondade é uma linguagem que o surdo consegue ouvir e o cego consegue ler.”
    Ouvi ontem por acaso, uma reportagem na rádio, sobre um rapaz que muito novo começou a ter problemas de visão e os pais levaram-no a vários especialistas nacionais que não conseguiam parar a progressiva falta de visão nem identificavam as causas.
    Havia em Espanha, um famoso médico oftalmologista que se chamava Barraquer e a ele acorriam doentes de todo o lado. Pois foram consultá-lo.
    À saída da consulta, a mãe do rapaz diz-lhe triste e docemente (nas palavras do filho que testemunhava nesse programa da rádio que eu ouvia) que o médico nada podia fazer e ele seria cego para o resto da vida.
    A voz do entrevistado era serena e bondosa quando disse que a mãe acrescentara logo a seguir: – não te preocupes pois mesmo assim vais ser feliz!
    E o rapaz terminou a entrevista dizendo que apeasr da cegueira conseguiu ver sempre nos outros a bondade para com ele e que era amplamente retribuida.
    Deixou-me muito “sacudido” este testemunho, por exigirmos tantas vezes conceitos sofisticados de felicidade que não passam pela bondade.

  8. Um bálsamo para este meu dia atribulado e cheio de consultas, escada acima, escada abaixo, de balcão em balcão, de gabinete em gabinete… estou exausta mas não tanto que não tenha sabido saborear esse texto!🙂
    Enorme abraço, Isabel!

  9. Marta R diz:

    Belíssima escolha Isabel.
    Numa noite fria como esta, sabe bem esse exercíco de “elevação” do dia-a-dia…
    Ajuda ao caminho quando ele anda cinzento.
    Abraço
    Marta M

  10. Maria diz:

    Li, reli e guardei, juntamente com outras crónicas do José Luís Peixoto, de quem gosto muito.
    Conheço alguns dos seus livros e gosto.
    Bom vê-lo aqui.
    Eu vou voltar. É uma ameaça.
    Maria

  11. Maria diz:

    Obrigada.
    Vou voltar, sim
    Maria

  12. mariana de athayde e leme corte real ferreira de lima diz:

    Viajar pelo teu blog fez-me querer pôr um pouquinho a conversa em dia.
    Adorei rever-te aqui, igual mas de convicções reforçadas e bem formadas.
    É tão bom saber que escolhi bem esta amiga e, tão menos bom não poder ver-te mas de perto todos estes anos passados…20 , eu acho…
    Escreve-me para o e-mail?
    Beijinhos

    • Querida Mariana, ler-te, encheu-me de ternura, saudade, de uma nostalgia até…porque afinal, 20 anos passaram, mas, na realidade, muito mais que 20… porque, aos tempos a que me remeto, recuo uns anos mais…e à imagem de uma menina sentada na beira do muro do liceu, encostada às grades, a conseguir os primeiros desabafos a uma “amiga”, numa amizade que nascia. Uma amizade que efectivamente AINDA se mantém, apesar de todas as distãncias físicas a que fomos submetidas: Tu para o Brasil, a ir por sei lá quanto tempo, a voltares já adulta, mulher, a partir novamente para sei la onde, sempre, sempre… e sempre a mesma também: a eterna Mariana, com uma alma enorme, profundamente sensível, e com uma capacidade imensa de SER AMIGA!
      Acho que o seremos sempre… para o resto da vida, independentemente da distância e dos hiatos de conversas incapazes de estarem em dia, a que as circunstâncias nos obrigaram.
      Obrigada por me teres reconhecido “aqui” também.
      Acredito que nos nossos já maduros anos e graças a estas novas tecnologias, não nos percamos mais, seja o rasto, seja a possibilidade de “Pôr a escrita em dia”.
      Gosto muito de ti Mariana. És e serás SEMPRE, uma GRANDE AMIGA… daquelas que guardamos para sempre no coração.
      Escrevo-te para o E-mail, sim. Mas não resisti a escrever tudo isto que me saiu, “aqui” mesmo.
      Obrigada, minha querida. Obrigada por continuares aí, genuína e inteira.
      Sempre,
      Isabel

  13. Inês diz:

    Isto é uma crónica, certo?

    • Inês… como pode ler, no final do texto vem a referência de onde foi retirado – José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro, 2012).
      Espero que isto responda á sua pergunta.
      obrigada
      Isabel

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