Tristeza e indignação

Passeámos por Leiria, o meu marido e eu, ao entardecer de hoje.
O programa Pólis enriqueceu e deu vida à beira rio, mas os nossos passos eram nostálgicos e francamente menos apressados do que a maioria dos transeuntes. Aproveitavam a temperatura amena e faziam a sua caminhada higiénica que cada vez está mais difundida como necessária. Já muitos a fazem. Ainda bem.
 
Indignados e tristes, caminhávamos a precisar espairecer ideias, preocupações, revoltas nascidas que nos amachucam a alma quase mais pequena…
Nos nossos passos, lembranças e temores. Sentimos saudades de outros tempos.
Lembramos a nossa juventude que, não tendo sido fácil, tinha futuro, o futuro que, com honestidade, trabalho e empenho fomos construindo passo a passo e que procurámos transformar nos dias de hoje… os dias que desejávamos mais serenos e com maiores horizontes.
Mas o que vimos e sentimos é este presente ensombrado, para nós e para os nossos filhos, para os nossos amigos mais próximos, para a nossa juventude portuguesa e, para aqueles para quem pensámos sempre ser solidários, tememos que possam sob tamanha crise social  e tamanha escassez de bens vir a precipitar tumultos que nos custa acreditar possíveis num povo como o nosso que se gaba de fazer revoluções com cravos. Até quando?
 
Nunca demos  passos maiores que as nossas pernas.
Fomos sempre seguros nos atos que cometemos, no que fomos adquirindo, sempre  com o esforço do nosso trabalho e dando prioridade à importância da educação e cultura necessária para educar os nossos filhos.
Mantivemos e reproduzimos neles os valores em que sempre acreditámos e queremos que eles acreditem.
Transmitimos o que pudemos com a convicção dada pelo exemplo.
E esses valores eram os da honestidade, da verdade, do trabalho e responsabilidade que, com orgulho, reconhecemos que têm cumprido.
Valores que sempre dissemos seriam compensados com uma tranquilidade da alma e da própria vida que, podendo ser simples, decorreria sem sobressaltos de maior e com a segurança necessária para se poder viver, sem luxos, mas com dignidade e com direito à cultura e ao desenvolvimento pessoal.
 
Hoje, com as medidas tomadas nesta semana pelo governo, governo em que votámos com esperança, a primeira desde há muitos anos… estamos tristes e indignados.
A esperança parece morrer pouco tempo depois,  apesar do esforço de compreensão pelo momento difícil que todos vivemos.
Fomos dos que estávamos dispostos a compreender a necessidade de sacrifícios. Dispostos a fazê-los pelo nosso país, pelo nosso povo em que acreditamos e que achamos merecedor de muito.
Gostamos de Portugal e temos orgulho de ser portugueses. Queremos trabalhar e mudar, através do esforço de cada um de nós, o percurso errado que se tomou desde há muitos anos.
Acreditamos que cada um com o seu esforço e empenho, com a sua compreensão poderá permitir que muito também possa mudar…
…mas tem que haver o mínimo de equidade e de justiça.
Não podem ser sempre os mesmos a pagar a crise.
Não resisto a transcrever aqui as palavras que o meu marido escreveu algures num lugar de face book onde Pedro Passos Coelho aparentemente se pretende próximo de quem nele apostou…
São palavras de indignação que partilho por tudo o que já escrevi e que desejávamos pudessem tocá-lo – A pessoa em quem depositámos os resquícios de esperança para este Portugal de que gostamos e que merece mudar:
 
“Senhor Primeiro Ministro, votei em si porque acreditei em si e no seu projeto para este País onde vivemos. Acreditei que conseguisse desmontar e lutar contra os poderes instalados e que têm vindo ao longo dos últimos anos a sugar muitas das nossas reservas económicas e financeiras. Acreditei na sua noção de justiça social, no empenho pelo trabalho e pelo rigor das políticas. Acreditei num Portugal melhor e com mais justiça, menos clientelismo, menos corrupção, melhor justiça, melhor educação, melhor saúde, mais agricultura e mais pescas. Acreditei num projeto de desenvolvimento sustentado com incremento das nossas exportações e um aligeiramento dos processos legais que estão por detrás do sistema produtivo.
É com profundo pesar e consternação, com desalento e tristeza que percebo que nada disto está a ser feito, ou o que está a ser feito é infelizmente muito pouco. Atua-se no facilitismo e imediatismo das medidas que pouco ou nada vão modificar a médio e a longo prazo. O projeto de País mais uma vez esvai-se na luta desenfreada do pagamento dos juros e das dívidas. Convenhamos que é parco e escasso o projeto que Vª Exª e o seu governo propõe para o nosso País. Onde estão as ações que toda a população quer ver implementadas? Ficaram-se pela simples anulação dos Governos Civis? E os institutos e as fundações? E as PPP? E as offshores? e tudo o resto Senhor Primeiro Ministro?
Como eleitor e votanteem si, Senhor Primeiro Ministro, digo-lhe que é escasso o seu desempenho como governante e que espero sinceramente mais de si, no futuro. Espero eu e todo o País. São urgentes medidas criativas que possibilitem e fomentem o desenvolvimento e as exportações. Todos sabemos que sem isso não conseguiremos sobreviver, ou não será assim?”
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9 respostas a Tristeza e indignação

  1. Vicente diz:

    Querida Isabel,
    Regressado de Pequim, ainda estou meio aluado com as horas por isso acordo a meio da noite…
    Muito bem escrita, tanto a sua como a prosa do seu marido. Concordo inteiramente qom o que dizem.
    Este País caminha para o ” non existant” e é lamentável que se vão tomando decisões sem a serenidade de antecipar que um destes dias, virá porventura uma outra “troika” qualquer dizer que afinal já não é preciso ser-se tão duro…veja-se a tendência de um perdão parcial da dívida à grécia para que se desliza…
    Mas entretanto o mal está feito, sofremos todos na pele e há situações irremediáveis que já não voltam atrás.
    Era preciso “allure”. ou seja subir e pairar no alto das nuvens e de lá observar sem a paixão e o imediatismo do “sur le qui vive”, para tranquilamente se ir conduzindo o país como se de uma batuta fina e leve se tratasse.
    Chega de grandes palavras e de gestos teatrais…discrição e serenidade na tomada das medidas indispensáveis, o resto é olhar para o umbigo..deles!
    Como ficou a saber, porque a informei em privado, o desafio para a minha vida vai ser outro…vou estar de longe e de perto observando, mas não já partilhando.
    Até ver! Nunca se sabe o que a vida nos reserva de sucesso ou desaires, mas como lutador que sou, vou em frente e corro os riscos.
    Mas não é a vida um constante risco?
    Portugal está a tornar-se irrespirável e a dor que sinto ao dizer isto é um misto de saudades de uma ideia de Pátria e o sofrimento em ter que partir.
    Como tão bem deixam entrever nas vossa linhas : BASTA!
    Somos todos dos indignados, nem podemos deixar de o ser!
    Um beijo amigo
    Manuel

    • Querido Manuel
      …desculpe só agora responder!…
      … fico triste com a sua patida, mas contente por saber que se mantém aceso nos seus projectos e na sua coragem também. Coragem para uns de premanecer, ficar… para outros de partir.
      Para os que partem desjo a força e coragem para conseguirem aquilo que a+arentemente “hoje” nos parece ou é vedado. Para os que partem fica no netanto a AMIZADE que permenece, intemporal e sem distâncias.
      Um abraço bem apertado
      Sempre, sempre,
      Isabel

      • Vicente diz:

        Querida Isabel,
        Bem amorosas as suas palavras, mas por enquanto, vou e volto, só que passarei mais tempo a viajar.
        No entanto, nas paragens por aonde andar, haverá sempre momentos de silêncio e de paz em que me apetecerá vir aqui, ao meu blogue, por e-mail, contactar consigo:-)
        Quem sabe até visitá-la em Leiria? Acho que se justificaria…uma visita de surpresa com uma braçada de lírios ou magnólias e levando para a sua família um cofre cheio de notas…de música…ahahaahah…sou um eterno brincalhão!
        Mas olhe que ir mesmo aí, fique-se com esta, mas aviso primeiro. Podemos ir roer uns ossos aí por um restaurante que recomende.
        Bjs muito amigos e até já

      • …:) terei todo o gosto na sua visita, Manuel!…, com ou sem lírios e magnólias🙂 (lol)… e fico contente que possa manter alguma disponibilidade para se manter por “aqui”… e para se dedicar à escrita também, porque sei que gosta e não há trabalho que resista à desistência de algo que é tão importante para alguém, como a escrita parece ser para si!
        Beijinho e muito obrigada pela sua disponibilidade e simpatia sempre.🙂🙂🙂
        Força!!!!!!
        Isabel

  2. Estamos todos indignados, sim, Isabel.
    No meu caso pessoal, nem sequer é por mim que me junto activamente a indignação pois não tenho subsídio de férias, nem de Natal… nem sequer pago IRS e as poucas compras que consigo fazer vão quase exclusivamente para a higiene e alimentação dos animais que a minha mãe me deixou em “herança”. É por todos que me junto à indignação dos cidadãos deste país.
    Um enorme abraço, minha amiga!

    Maria João

  3. João Nuno diz:

    Querida Isabel,
    no meio das suas palavras tão certas e reais…um texto mais do que belo que aqui partilho…

    «A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima de uma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
    Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do amor e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor (…)».

    Descrição por Sophia de Mello Breyner da sua Arte Poética num texto lido em 11 de Julho de 1964, no almoço de homenagem promovido pela Sociedade Portuguesa de escritores, por ocasião da entrega do grande Prémio de Poesia, atribuído a Livro Sexto.

    • Gosto particularmente deste texto de Sophia… um texto que recordo sempre e sempre…
      …perdoe a ausência… a reposta tardia. Sei também o quanto anda ocupado com o seu mestrado… mas tenho tido o tempo tão tomado que quando me sento sem nada na mão… adormeço, para não falar das vezes que o faço de livros na mão…
      Um destes dias escrevo!
      Beijinho muito amigo e com saudades
      Obrigada pela sua presença sempre. mesmo quando muito ocupado.
      Sempre,
      Isabel

  4. Vicente diz:

    Muito bonito texto. Se não nos concentrarmos no pensamento de bons autores, creio que cada dia que passa mais amargura se apoderará de nós, insidiosa, maléfica, destruindo-nos as “guardas”!

    Sobretudo eu já nem olho só para Portugal. O que nos espera em cascata com tanto despaupério.

    Se nos pusermos na pele dos gregos, das famílias empobrecidas que, disse-me um amigo, partilham agora andares colectivamente e repartem o dia-a-dia com penosidade e extrema infelicidade, talvez possamos vislumbrar alguma razão na falta de realismo de quererem um referendum!

    Estão fartos da Europa e quiçá dos próprios políticos gregos que os levaram a esta situação! E mesmo que olhem para o passado e se culpabilizem, o presente é que é feito de miséria, desemprego, fome, desespero! E acontece agora, em cada dia, em cada fim de mês!

    Para pior não irão, pensam os gregos, ao menos que sejamos senhores do nosso (pobre) destino!

    E o precedente poder-se-à estender a todos estes países sob o jugo de uma batuta europeia desgovernada e perdida.

    E é isto que me angustia, pois naturalmente vamos pagar a factura e será ainda muito mais pesada!

    Não sei mesmo o que pensar, decidir em relação ao futuro aqui em Portugal!

    O que fazer de poupanças? o que fazer da propriedade de bens imóveis herdados que cada dia se desvalorizam sem nunca mais terem decente retorno? como suportar ainda mais impostos previsíveis? etc, etc, etc.

    E já é este o dilema da maioria dos portugueses conscientes,

    Como sobreviver na velhice com magras pensões ilegítimas pois desconta-se toda uma vida? como defender o nosso emprego, quando tudo à nossa volta cai em pedaços?

    E tudo isto tem que ter resposta independentemente de saberem o que nos dizer, ou melhor, de sabermos como decidir.

    Porque, inevitávelmente, o que tiver que acontecer virá!

    São tempos de grande tormenta!

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