Quem nos rouba o tempo? (2)

As palavras do texto de Tolentino Mendonça, publicadas no post anterior sobre “quem nos rouba o tempo?”, acrescidas dos comentários deixados pelos amigos, foram e vão ao encontro de muitas reflexões interiores que tenho procurado fazer.
 
Em determinadas fases da vida, assumem uma intensidade invulgar.
… e todas estas palavras e reflexões me têm enriquecido e ajudado bastante.
 
…nos últimos postes, tenho deixado transparecer várias angústias…
…angústias em que “o tempo” acaba por ser redundantemente expresso, mais ou menos subtilmente, como mal gerido, mal vivido, ou o tema da angústia em si…
… o que não quer dizer que assim seja… sempre!… (tenho que o dizer a mim mesma, nesta minha exigência de que afinal nem me arrependo.)
 
Quem não se questiona sobre o tempo e a forma como é vivido?
Quem não se questiona com a eventualidade ou o medo do seu desperdício que será afinal sentido pela maioria de nós como o desperdício da própria vida?
 
Seria bom, nessas fases, sermos capazes de enfrentar um rumo.
Assumi-lo e a toda a experiência que o caminho necessário à sua assunção nos oferecesse…
 
…no final não muda muito, creio.
 
Estamos sempre a enfrentar o tempo, a questioná-lo e a questionarmo-nos sucessivamente…
 
…não tem sido por isso que, felizmente, acabamos por aprender alguma coisa e mantemos esta saudável insatisfação da procura, entre o ritmo acelerado e a aprendizagem da paz e da serenidade?… entre a guerra às rotinas e o reconhecimento da importância que podem ter, para a realização do muito (pensamos) que queremos fazer?
 
Acho que não esgotei ainda esta minha reflexão…
Sinto-me ainda a reflectir seriamente sobre ela…
 
… e  a cada frase que escrevo, contenho-me, porque me sinto catapultada para outros múltiplos temas que entretanto se entrelaçam e sobre os quais me parece mais produtivo reflectir individualmente, como se dissecasse um corpo, para analisar cada órgão per si sabendo que só tem significado a sua existência no conjunto de que faz parte.
 
Nos próximos 6 meses terei de enfrentar não sei quantas solicitações… umas que me apetecem, outras que terão que ser, simplesmente… precisamente assim… sem saber ainda como serão…
…umas que me envolvem, outras que envolvem outros, nomeadamente os meus pais, como se aperceberam.
… umas que me apetecem, seriamente…(parte delas)… outras, confesso que não…
…outras ainda que me entusiasmam e me assustam simultaneamente…
…mas o maior receio é o seu conjunto! A complexidade do todo de que temos uma fraca percepção!…
 
Mas depois de todas estas palavras, do post e dos comentários amigos, uma coisa sei, ou sinto de uma forma muito mais transparente.
É como uma descoberta… e como se me permitisse a escolha desse rumo de que falei como necessário em certas fases da vida e de que neste momento necessito.
 
…e pego na frase do comentário da minha amiga Teresa, com as palavras de Ricardo Ross, sem subestimar nenhumas outras:
 
“O meu compromisso com a vida consiste em fazer com que o meu tempo, o tempo que me está reservado, reverta nas pessoas que amo através do tempo que lhes dedico. Perder o tempo é desperdiçar a minha capacidade de dar-me aos demais. Quando dou o meu tempo aos demais, quando lhes dedico o meu tempo, o meu tempo é infinito e a minha vida perdura ao longo do tempo.”
 
Concordar com o que diz este autor, ou sentir nas suas palavras uma identificação que me preenche neste momento (momento já aparentemente longo, em que me tenho sentido dividida e até angustiada tantas vezes), constitui uma descoberta que me satisfaz.
É como se me facilitasse escolhas. Escolhas necessárias. Escolhas que me têm angustiado o espírito, intermitentemente na sua intensidade… como um desassossego reincidente, para não lhe chamar contínuo.
 
Sei que serei sempre “desassossegada”… alguém que procura ininterruptamente…
 … mas sinto-me essencialmente uma “fazedora”, como diz Rosa Montero ao falar da irmã, no seu livro “A Louca da Casa”.
 
Sinto-me uma “fazedora” quando aceito simplesmente o tempo… esse que dedico a tentar não desperdiçar, acima de tudo, na minha vontade de estar com os outros e de dar tudo o que possa, porque efectivamente é a forma de me sentir mais inteira…
 
…claro que também precisamos estar connosco próprios… mas faz sentido a partilha dos diferentes momentos.
 
Gosto da vida que é para ser vivida e partilhada…
…e gosto de amar… o que tem  muito que se lhe diga!… (e não quero com isto fazer-me de “boazinha” que é algo que detestaria ser!)
 
Estamos sempre a descobrirmo-nos e aos outros… e amar não significa concordar, nem ser passiva, nem dizer a tudo sim… seja na família mais restrita, seja na mais alargada, seja com os amigos, seja com quem nos vamos cruzando na vida.
 
Amar é dar uma oportunidade aos outros, a nós mesmos e à vida!
 
Fazemos parte de um todo… e amar é a procura do equilíbrio periclitante que dá fascínio a tanto…
 
…e um dia, quando o soubermos fazer de uma forma efectiva (e leva muito, muito tempo a consegui-lo), será fantástico… e, quem sabe, tranquilo.
 
Muito obrigada a todos por me fazerem companhia no caminho!
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16 respostas a Quem nos rouba o tempo? (2)

  1. Muito obrigada a si, Isabel, por me ter deixado “espreitar” por esta janelinha que dá para a sua alma! Gosto muito de o fazer e de me saber a coincidir, em tantos passos, com o seu percurso!
    Um abraço grande e uma boa noite!🙂

    • É tão bom quando abrimos a porta ou a janela e sentimos que alguém gosta de entrar e por vezes até ficar um pouco…
      …sente-se o aconchego de uma conversa amena ou mais acesa. É partilha. e sabe bem, Maria João. Partilhar é muito bom mesmo!
      Um beijinho de boa noite… e obrigada eu!
      Sempre,
      Isabel

  2. Vicente diz:

    Vou escrever no meu blogue um pequeno artiguinho a que chamarei ” o repouso do guerreiro” aonde abordarei este seu tema, que está muito bem exposto e aflora reflexões que se têm que fazer, aconteça o que acontecer.

    Estão a acontecer factos e coisas nas nossas vidas que não poderão ser encaradas com total passividade, sob pena de não passarmos de uns imbecis…a definição do “bon sauvage”!

    Um beijo

  3. O tempo.
    Que tempo? A cristalizãção imediata do acontecido nos recantos da memória? A projecção dos anseios, das vontades, a que chamamos futuro?
    Ou a fugaz permanência do presente, desimaginado de ser amanhã, para se poder ser acontecido, num mar de recordações.
    Também pode ser o tempo da passagem do sono profundo para um leve acordar, que nos parece tão pouco, se for amargo e tanto, num doce acordar. O tempo freudiano dos sonhos…
    Há tanto tempo, no tempo e no que sobre ele, dentro dele e através dele, podemos pensar.

    • “George.Sand”
      Que seja. O Tempo. Cristalização imediata ou tardia de tanto, se valer a pena a cristalização.
      Memória ou recalque, que sei eu da física ou da química dos sentimentos, das emoções e de tantas outras experiências que perduram em nós a aguardar efeitos? E que efeitos são esses, mesmo que alimentados por projecções ou com formas vindouras que desconhecemos?
      Vive-se o presente, fugaz, concordo, para discordar seguidamente, por tudo o que possa ter dito antes ou possa vir a dizer nesse amanhã consequente e sequente de tanto.
      Sono profundo, acordar leve, ou estremunhado, ou confuso, ou abrupto… ou acordar simplesmente, o que faz falta a tanta gente. Acordar!!!
      Há de facto “tanto tempo, no tempo e no que sobre ele, dentro dele e através dele, podemos pensar.”!!!!!!!!!
      Gostei muito da sua intervenção.
      Volte sempre!
      Obrigada
      Isabel

  4. Vicente diz:

    «Ouvi dizer que há um pássaro sem patas. Não pode parar, tem de voar constantemente. Só pode pousar uma vez. É quando morre.»

    (Do filme ‘Dias Selvagens’, de Wong Kar-Wai)

  5. Vicente diz:

    menina Isabel,
    por onde anda que não vemos sinal de si? espero que tudo corra bem pelos seus lados.
    terríveis notícias se nos anunciam, e por mais que procuremos não encontramos porto seguro.
    os deuses devem estar loucos, ou serão os homens que não se encontram na sua própria circunstância?
    quem me dera ser pequenino, começava aquela canção de embalar…mas tinha que ser num tempo entre o dealbar da Humanidade e o infinito…no meio houve de tudo.
    perturba-se a minha alma e o meu espírito confia em ti meu Salvador, mas por onde andas que te não vemos?
    e os hinos e salmos poderiam sem cessar ser entoados e a perturbação não abandona o meu coração.
    que fazer então quando se aproximam os tempos da ira e da provação?
    dizem os antigos que se trasladaram para o deserto.

    • …meu amigo… longe da vista, de facto (e peço perdão), mas sempre bem perto do coração.🙂
      Dou notícias em breve!!!!!!!!
      Saudades e obrigada por continuar aí, sempre presente para nos alertar, provocar, rechear um pouco desse sumo que precisamos para a reflexão e para a VIDA!!!!!!!! mesmo que nos translademos para o deserto, que saibamos por exemplo construir uma comunidade ideal…, porque não?… a que construiremos sobre todas as dificuldades e desventuras e medos e provações…
      …quando se conhece melhor a humanidade, o Homem, senão em momentos de crise?
      Abraço bem forte
      Sempre,
      Isabel

  6. Vicente diz:

    Folgo muito:-)
    Bj amigo
    Manuel

  7. Emília Pinto diz:

    “Estamos sempre a descobrirmo-nos e aos outros… e amar não significa concordar, nem ser passiva, nem dizer a tudo sim… seja na família mais restrita, seja na mais alargada, seja com os amigos, seja com quem nos vamos cruzando na vida”
    Faço isso sempre, Isabel!!! Não sei ser de outra maneira. Traz-me dissabores muitas vezes, mas sempre acreditei que amar é isto mesmo que transcrevi do seu texto; é assim que gosto de ser amada, com a sinceridade, com o sim e com o não. Considero-me uma inquieta, uma inconformada e isso rouba-me tempo, pois esse tempo de inquietude não me deixa tempo para apreciar as belezas do dia a dia.Como eu tenho desperdiçado o meu tempo!!! Perco-o todo a pensar…mas o que me falta? Continuo a não saber o motivo de toda esta minha inquietude, esta minha falta de serenidade . Num dos meus últimos posts falo de um livro, O Vendedor de sonhos; lindo! Falta à nossa sociedade muitos vendedores de sonhos; falta-me a mim a decisão de ser uma vendedora de sonhos……”e um dia, quando o soubermos fazer de uma forma efectiva (e leva muito, muito tempo a consegui-lo), será fantástico… e, quem sabe, tranquilo”, mas, Isabel, tenho medo que seja tarde…tenho medo que o tempo tenha dado por terminado o tempo que desperdiçou comigo; não o aproveitei e ele não se compadece, pois até o tempo tem o seu tempo… Adorei estas suas reflexos que são também as minhas…que são as de muita gente também. Um beijinho, amiga e espero que já esteja tudo bem com a sua mãe. Fique bem!
    Emília

    • Olá Emília!…
      Gosto sempre tanto das suas palavras!
      É reconfortante sentirmo-nos entendidos… e sinto que a Emília é mesmo assim como diz, mesmo quando a sua postura lhe traz dissabores. Mas só assim merece ser vivido o amor.
      Um abraço bem apertado,
      Isabel

  8. Tema que me toca profundamente porque vem completamente ao meu encontro.
    Amiga, como se lê, a sua criteriosa reflexão é necessária e frequente nas mentes saudáveis. A preocupação de viver cada dia sem desperdiçar nada … especialmente o tempo !!!
    Há que tirar partido do que empiricamente se aprende e descobrir o rumo certo a tomar, embora saiba das muitas limitações e impedimentos.
    Espero que encontre o seu rumo !!!

    beijinho

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