A necessidade de contar, elogiar, denunciar… Reflexões? (1)

Na sequência do post anterior senti necessidade de contar o que se passou desde a queda da minha mãe.
 
É uma vivência pessoal e íntima que procurarei partilhar. Sei que ela nos poderá transportar para algumas reflexões importantes a fazer. Reflexões que ultrapassam o âmbito pessoal. São afinal problemas que estão a acontecer connosco agora, mas que são problemas  e angústias de muitos.
A nossa sociedade necessitava estar estruturada de outra forma… 
Somos ou não seres humanos?
Onde estão os nossos direitos e deveres?
Como podemos exercê-los?
 
Surgem-me tantas questões todos os dias!…
 
… e foi assim que, no dia 9 de Agosto fui acordada pelo telefonema do meu pai.
Eram cerca das 7 horas.
Na voz, sentia-se angústia e impotência… um pânico velado que me sobressaltou.
O relato resumia-se ao facto de a minha mãe estar caída junto à cama sem conseguir levantar-se, consciente da fractura do colo do fémur pelas dores que tinha.
O meu pai, sem conseguir levantá-la.
O meu irmão mais novo, o que mora em Lisboa e lhes dá o habitual apoio directo, de férias, longe.
Nós a 150 Km. A constante distância.
 
Pedimos ajuda à Filipa, a neta mais velha, minha filha, que também mora e se encontrava em Lisboa.
Acorreu o mais rapidamente que pôde a casa dos avós para resolver os problemas mais imediatos e dar-lhes o primeiro apoio directo.
Chamou a ambulância, orientou e acalmou como pôde o avô e acompanhou a avó assustada e dorida ao hospital tentando minimizar o sofrimento que sabia duplo e que por isso se avolumava e hiperdimensionava. Medo e dor física.
 
Tem pavor de hospitais a minha mãe. Habitualmente recusa-os, como as idas ao médico, de que foge com todos os argumentos que constrói e fabrica e todas as pressões que exerce sobre nós para conseguir que lhe respeitemos os desejos e medos.
Tem pavor de hospitais… e é tendencialmente pessimista! Embora seja também extraordinariamente corajosa e forte.
Faz sempre um esforço suplementar e quase estóico para conseguir a melhor qualidade de vida sem intervenção de terceiros.
 
Gosta de dar… sempre gostou. Tem dificuldade em aceitar ajuda. Em aceitar o prazer de receber… e mais ainda, a necessidade…
…e somos tantos a querer dar-lhe tanto… e tanto que merece!…
 
 Enquanto a Filipa embatia com as primeiras dificuldades e problemas, nós, já a caminho de S. José e o meu irmão mais novo, a caminho de casa do meu pai. Havia que dar-lhe o restante apoio… tanto do muito que necessitava naquele momento também e não podia ser esquecido!…
…e o meu irmão, de facto, não esquece…
 
Assim ficámos dentro de algumas horas todos juntos, dentro do possível.
Cada um em seu canto… mas todos em S. José, revezando-nos e colaborando cada um com o que podia e sabia.
Angustiados, todos. Mas não pessimistas…
Acima de tudo, atentos…. para podermos agir de forma concertda com os serviços… para obter as informações necessárias ao acompanhamento… para que se pudesse programar a recuperação o mais precocemente possível… a que lhe permitisse readquirir alguma autonomia.
 
A alta de um doente, por incrível que pareça começa a preparar-se no momento da sua admissão. É um processo moroso, complexo e lento. Exige muito de muita gente. Exige um importante trabalho de equipa em que intervêm muitos elementos de forma multidisciplinar e em articulação com a comunidade também.
 
 Nestes primeiros momentos de aflição, o meu primeiro elogio é para a Filipa.
Foi crucial todo o seu envolvimento e desempenho neste processo. Todo o acompanhamento e ajuda que prestou aos avós e a todos nós. A cada um de forma individualizada, estabelecendo prioridades com uma invulgar desenvoltura e presença de espírito, prestando apoio e cuidados directos e, simultaneamente, fazendo de elo de ligação entre todos nós. Com objectividade, mas sem nunca esquecer o lado emotivo e humano de todos e de cada um.
 
Obrigada Filipa. Sentimo-nos orgulhosos e reconhecidos, todos nós.
 
Um elogio também, nesta fase, para os técnicos da ambulância que foram buscar a minha mãe a casa e a transportaram ao temido hospital, manifestando para além da imensa competência técnica, uma imensa competência humana crucial neste processo. Foram fantásticos segundo a descrição da Filipa e posteriormente da minha própria mãe.
Os seus gestos foram extremamente importantes para diminuir a sua dor física, mas sobretudo para lhe dar o apoio moral, psicológico e humano de que necessitava. Uma janela aberta para ultrapassar os infindáveis medos.
 
Um elogio para nós como família… porque ser família é um processo de construção e é uma” instituição” difícil e sempre inacabada.
Num momento de crise conseguimos mobilizar-nos e articularmo-nos de acordo com as necessidades, mas acima de tudo com uma vontade genuína de nos entreajudarmos e minimizarmos o sofrimento dos nossos pais.
 
Mas não são só estes os elogios que pretendo fazer…
…como me apetece também denunciar o que me choca.
 
Procurarei fazê-lo da forma mais construtiva que consiga, já que não me sinto isenta e ainda estou demasiado envolvida em todo este processo.
Sou enfermeira. Estou dentro do Sistema Nacional de Saúde. Custa-me assistir a algumas evidências e falhas, sejam as do sistema, mas particularmente as que são de âmbito pessoal.
Detesto fazer julgamentos… Precisávamos poder e conseguir sentarmo-nos todos à mesa para reflectir e tentar mudar tanta coisa… para bem de todos nós!
Afinal o sistema é para o uso de todos! Nosso também. Quando menos se espera.
Perdoem  minha verborreia de hoje.
Sempre,
Isabel
 
(Continua) 

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12 respostas a A necessidade de contar, elogiar, denunciar… Reflexões? (1)

  1. Olá Isabel!
    Obrigado por mais esta sua partilha! Obrigado por me ter mostrado que a sua Familia é unida, solidária, afectuosa, e participativa! Parabéns!
    Este momento, só por si, é uma lição para todos que, pazendo parte da mesma Familia, actualmente, destroiem a Célula Famila, essência da coesão do povo de cada país.
    O resto, os incómodos, os elogios, as denuncias, inerentes, um internamento hospitalar, principalmente quando se trata de um familiar nosso, guarde para si e enalteça, a cima de tudo, e todos, a Força Presencial e Viva, da vossa actuação diária como membros unos e indivisos do mesmo agregado familiar!
    Não se esqueça que conheço muitissimo bem certos meandros hospitalares por pertencer a um grupa de Visitadores Voluntários do IPO, em Lisboa…
    Quano o mal nos toca na pele, ou nos bate à porta, só desejamos aquela perfeição utópica, bem pertinho do «milagre».
    Parabéns pela Familia que ainda tem, unida, solidária, e participativa em partilha!
    Um beijinho para si
    Marcolino

    • Obrigada eu, Marcolino pelos elogios que tece.
      De facto a minha tendência e crença é a do elogio. Agradecer. Olhar de coração aberto os outros.
      Mas também acho que se deve reflectir sobre o que falha… criticar de forma construtiva… mesmo sabendo que por detrás de algumas atitudes ou falhas que nos possam chocar estão causas alheias aos gestos de quem as comete…
      …mas se não reflectirmos, todos e cada um, sobre cada passo que damos, nada se constrói, nada se modifica.

      Não creio que possa desejar a utopia, nem milagres,mesmo que, tratando-se da minha mãe com esta idade, os desejasse…. até porque conheço o sistema relativamente bem e sei as falhas que existem e que dificultam “os peões” que são cada trabalhador…,vítimas do sistema também… seja ele enfermeiro, médico, auxiliar, porteiro…
      Conheço-me e quanto ás utopias que construo. Sou reconhecidamente idealista apesar de ter idade para ter juízo, segundo alguns. Mas sou idealista sim e no que idealizo, faço-o de preferência relativamente ao que possa depender dos meus comportamentos… comportamentos que procuro adequar às possibilidades e nunca exigindo aos outros antes de o exigir a mim mesma. Sério que procuro ser flexivel, compreensiva… mas sou humana!… e dentro da minha relativa exigência para com os outros, procuro respeitar sempre quem esteja na minha frente… e procuro sobretudo não julgar.
      Mas não consigo deixar de me chocar com algumas atitudes… mesmo que me esforce por pensar que, por detrás de cada gesto há sempre uma razão que ultrapassa a pessoa que o comete… e que essa pessoa deveria ser ajudada a reflectir e a procurar saber porque age assim, ou agiu pontualmente assim. Quem sabe essa pequena reflexão não ajudaria a mudar pequenos gestos que em determinadas situações podem ter tanto significado?
      Utopia?
      Acho que não, Marcolino. Mas compreendo o que diz… e sim, o melhor em todo o caso é colher o que descobrimos de mais positivo. E neste caso é muito importante o que possamos fazer como família daqui para a fernte… porque temos realmente muito para fazer.
      Beijinho amigo e obrigada uma vez mais.
      Isabel

  2. Vicente diz:

    Querida Isabel,

    Estou em S.Paulo, mas se precisar de ajuda em S.Jose, diga-me, pois um dos meus irmaos eh cirurgiao e ortopedista Em S.Jose.

    Beijinhos

    Manuel

    • Querido Manuel
      Agradeço mais uma vez a sua disponibilidade e ajuda. Sei que o faz do coração.
      Contacto consigo se precisar. Mas a intenção já vale muito.
      Obrigada.
      Espero que em S. Paulo tudo esteja a correr bem….
      Beijinho
      Isabel

  3. Vicente diz:

    Cheguei ontem e está frio e chuva, mas vai mudar amanhã.

    Muito obrigado pelos seus comentários no blogue:-)

    Bjs

    Manuel

    • …mas o tempo vai melhorar de propósito para si!… acredita????? É que merece!
      A minha mãe está melhor e eu estou francamente mais feliz!
      Obrigada Manuel.
      Sou fiel aos meus amigos. E o Manuel é um Amigo!
      Abraço forte e mais feliz…
      Isabel

  4. Fernanda Matias diz:

    Olá Isabel

    Estive ausente quinze dias, para ficar com a minha Mãe, que está menos bem com os seus lúcidos 83 anos. Vim saber de si e fiquei então a saber que também tem estado dedicada á sua Mãe. As minhas sinceras melhoras para ela e que ,o post alta hospitalar corra muito bem, para ela continuar com todos Vós. A fragilidade da saúde dos Pais, deixa-nos angustiados, ansiosos e com medo…da morte ( dêmos o nome a esse medo).
    Na resposta ao Marcolino, vi outra vez o quanto me identifico em tantas coisa com a Isabel. Também eu própria tive um incidente de saúde recentemente ( nos dias que cuidei da minha Mãe), que me levou a 2 Serviços de Urgência. Vi tanto………e não pude fazer nada.
    Uma das coisa que vi foi um Sr.já idoso tentar que lhe trocassem a receita médica de há uns dias atrás , por medicamentos mais baratos, pois tinha ido á Farmácia e aqueles não podia comprar.

    Uma Jovem que dizia estar toda cortada e a sangrar solicitava prioridade no atendimento. Mesmo não sendo situação prioritária , porque não sangrava nem tinha cortes, estava muito doente mentalmente e foi vista como ” a tolinha ” que estava na sala de espera.
    Eu fui bem atendida, apesar de não haver uma pinça no S.Urgência para extrair um corpo estranho do meu olho. Valeu o empenhamento de uma Enfermeiro que procurou junto das Funcionárias Mulheres quem tinha uma pinça na carteira, e lá encontrou o recurso e me libertou duma dôr incomodativa que, noutra urgência oito dias antes tinha sido uma conjuntivite.
    Falta darmos atenção uns aos outros , falta tanta coisa, mas não devemos desistir de nada. Também todos temos coisas e experiências muito boas, apesar de termos dias ” de azar”.
    Um grande abraço e, hoje, também para o Vicente que foi tão solidário consigo, ao disponibilizar os serviços do seu irmão para a sua Mãe. Assim sim.

    Fernanda Matias

    • Obrigada Fernanda. Mas também concordo com o Marcolino que as coisas “melhores” pesam apesar de tudo mais do que as menos boas. E isso faz-me feliz… sobretudo porque estou a sentir que a minha mãe está a melhorar e é tudo quanto quero. Senti-la bem e ao meu pai também. O meu irmão tem sido extraordinário e também é uma fonte preciosa de ajuda psicológica para que eles se sintam progressivamente melhores. Mas ainda há muito para fazer.
      Um abraço desejando as melhoras da sua mãe e um beijinho especial para si a desejar-lhe toda a força do mundo.
      Sempre,
      Isabel

  5. Marta R diz:

    Isabel:
    Vim aqui visitá.la e encontrei esta partilha e fiquei triste…Triste por saber deste acontecimento e das dificuldades e pelo peso que sei, um acidente destes, têm para todos.
    Depois encontrei esta família que soube unir-se e apoiar-se de forma exemplar.
    E as tuas palavras de reconhecimento e amor por todos os envolvidos.
    E sinto que tudo há de ser passageiro e há de unir-vos de certeza.
    Espero que o pior já se tenha passado e que, dentro de algum tempo, a vida retome o melhor possível.
    Abraço solidário a todos
    Marta M

    • Querida Marta
      Obrigada!
      Felizmente a minha mãe está melhor e volto a acreditar que estará com vários problemas resolvidos nos próximos tempos. Assim que possa escrevo mais um pouco ,a dar com mais ênfase essas notícias… as boas…🙂 … e que me devolvem a possibilidade de me tranquilizar de outra forma e conseguir reorganizar-me para um periodo que se aproxima e promete muito, muito trabalho.
      Um beijinho amigo
      Isabel

  6. Só agora, já meia a dormir, me lembrei que me tinha esquecido de ver a caixa de correio. Peço desculpa se o meu português estiver incompreensível mas a verdade é que estou com o raciocínio toldadíssimo por um sono que só com muito esforço estou a tentar vencer. Vi, no seu último comment, que a sua mãe está a melhorar. Fico muito, muito feliz por todos vós!
    Amanhã volto cá… a esta hora já nem sei se ainda sei o que estou a escrever🙂

    Beijinho, Isabel!

    Maria João

    • Querida Maria João
      Obrigada de qualquer forma. Logo pode ser que já dê notícias mais concretas. Mas o importante, de facto é que a minha mãe estaja melhor.
      … e o elogio ao meu irmão também!
      Um beijinho muito amigo,
      Isabel

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