Era uma vez… a Primavera

  

Esteve um céu azul, luminoso e transparente. A temperatura retomou o afago ameno. E o sol já se faz sentir com algum fulgor…
…as árvores, essas que vejo do alto da colina vestem-se de acordo com o seu próprio tempo.
Umas, ainda nuas, contrastam com a explosão contundente das imensas flores que parecem brotar todos os dias noutras ramagens. Suavizam-se algumas, progressivamente vestidas de um verde novo…
Queria falar-vos hoje, deste local especial… o local da minha história. Da história que pode ser de cada um de nós, no segredo do “Era uma vez…”
 
E foi assim que hoje dei comigo a olhar uma colina e um vale… estavam verdes. Muito verdes. Ondulados de ervas viçosas e brilhantes, salpicados dessas árvores mágicas e belas, cada uma à sua maneira. Era um espectáculo digno de se ver.
Gulosa, sentia-me a querer absorver a força de toda aquela explosão de cor.
Algumas dessas árvores, como previa neste dia de equinócio, estão pejadas de flores.
Brancas, rosa, amarelas, efervescentes, luminosas, apelativas, espreguiçam-se sem pudor a preencher as copas,  ou a salpicar o chão e a dar guarida algures, em alguma delas, a um duende esquivo e simpático, meu amigo e amigo também de quem ainda gosta de árvores e de colinas, de vales e de histórias… de quem ainda gosta de segredos, guardados na contemplação e na alma.
Mansa a paisagem, nesse vestir-se de verde e de flores, faz-me apelos em sussurro.
Visto então o meu vestido de algodão sem mangas, largo e solto. O que guardo todos os anos para esta ocasião. E entro na história por contar. Invento uma “Alice” sem coelho que escuta duendes e mais aqueles a quem os duendes falam de quando em vez.
Sopra uma brisa ténue e leve. O vestido cola-se-me ao corpo. Toque suave e doce. Carícia ténue que se sente, sem se pedir.
Fico leve e corro, como criança, a sentir o acolchoado verde debaixo dos pés.
As ervas estão húmidas e frescas. Exalam um aroma que se expande a cada passada corrida, onde se desfocam linhas e manchas.
Um atordoado de cor e cheiro turva-me de alegria os olhos húmidos… e gosto desse desfocar do momento, próprio da vida.
São o tempo, a natureza e eu, a passarmos. São vida manifesta e sentida.
 
Sem cerimónia, aceito o convite intimista duma das árvores. A magia do duende.
Baixo-me e esqueço o ranger dos joelhos. Encosto a cara às pétalas das flores que do chão brotam e não sinto dores nas costas!… e aqueles caules e folhas desordenados, são como massagem revigorante.
O odor espalhado pelo calcar dos pés na minha corrida, intensifica-se. Impregna-me toda até lhe sentir o sabor.
Respiro fundo por várias vezes, de forma involuntária e inconsciente, no desejo de preservar uma boa reserva de toda essa vitalidade tão genuinamente oferecida…
 
Depois… depois, quero permanecer na história!… Seja “Alice”, ou apenas aquela que quer imaginá-la, contá-la …e agradeço o que há em mim de crédulo nas árvores e nos duendes… nas histórias vividas ou por viver…
 
Impregnados da magia das árvores, dos duendes, das primaveras, das histórias, sabem-se nestes momentos, coisas que não precisamos determinar e definir. Coisas profundamente íntimas e belas…
Endireito as costas. Gesto impulsivo e correctivo. Gesto de energia reconhecida! É como se uma seiva bruta, captada pelo contacto dos meus pés nus na erva e na terra, ascenda e se aposse de mim num acto de osmose.
Elabora-se essa seiva. Alimenta-me. Sempre.
Em contraste com a frescura de toda essa aquosidade interior, brotam-me algumas ondas mornas dos olhos. Salgadas, espraiam-se suaves no rosto… e regressam a terra, devolvendo a dádiva, agradecendo sem vergonha. Transbordar espontâneo, livre, singelo e  natural.
É que não resisto ao “Era uma vez”, à Primavera, à história, à colina, ao vale, à arvore, ao duende, ao “sempre”que cada um deles eterniza em si…
Ávida, agarro secretas mensagens a desvendar no tempo… tempo das histórias!… e acredito …Tenho que acreditar!
…e, porque as histórias não se apagam, querem fazer-me companhia na história?

         

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6 respostas a Era uma vez… a Primavera

  1. Muito bela e simbólica, essa floresta que, parcialmente, partilho consigo… neste tipo de narrativa intimista, cada floresta tem os seus próprios segredos e as suas próprias clareiras. Parece-me ser um local de eleição – cada floresta – para se exercer o direito de nos identificarmos com ela🙂 Gostei muito dessa sua floresta mágica!
    Abraço!

  2. Emília Pinto diz:

    Devemos pelo menos tentar fazer-te companhia nesta históris; história linda, como linda é esta estação que agora começa; somos nós…a natureza…o tempo a passar numa roda viva que é o mundo…que é o tempo…que somos nós…que é a vida. O tempo roda num instante, Isabel. Quero também acreditar que renovarei com a Primavera, que com ela começarei de novo uma nova história…uma nova fase…uma nova vida. Adorei a tua história, Isabel Beijinhos, amiga
    Emília

  3. Fernanda Matias diz:

    Querida Isabel

    Como gostaria de me inventar ou reinventar na sua história, através da escrita.
    Sei o que sinto, mas não tenho a capacidade da Isabel. Muito bonita ” Era uma vez ….a Primavera”. Não nos conheçemos pessoalmente, mas estou a imaginá-la nesse passeio pela primavera, que já chegou e nos faz companhia todos os anos.
    Um grande abraço

    Fernanda Matias

  4. Herminia Lopes e Emilia Pinto diz:

    oi Isabel!
    Com a sua história conseguiu levar-me a um passado presente.
    Parabéns, em todos nós há sempre um pouco de primavera.
    Há sempre um bocadinho duma “Alice”
    Continue amiga ,gostei muito.
    Até breve
    Herminia

  5. João Nuno diz:

    Querida Isabel,
    talvez a Primavera também seja um estado de graça. Talvez seja um despontar crescente de uma vontade cintilante de novos ventos e marés. E esta onda dos “talvez” deixa-me, por um lado, angustiado e, por outro, mais crente e expectante. Com a nítida ambivalência de quem vive em prol de um querer descontente e sonhos desmedidos a que a idade assim obriga.
    Gosto da frescura da Primavera. E gosto ainda mais quando os címbalos ressoam a anunciar novas alvoradas. A incrementar a força nos dias e a subtileza nos olhares. E preciso muito, mesmo muito, querida Isabel, de novos e bons desafios para breve. Daqueles que nos enchem a vida de circuitos milimetricamente arrojados e pertinentes.
    Obrigado, de alma, por nos trazer a sua Primavera. E por nos devolver a esperança em dias que se querem ensolarados e não pardacentos.
    Obrigado por ser minha amiga e por me ajudar a crescer com as suas palavras.
    Um beijinho,
    João Nuno

  6. Como me identifico no seu texto amiga Isabel.

    Na Primavera sou mais eu, mais viva e desperta.
    Adorei.

    Beijo e bom fim de semana.

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