“A Minha Árvore” e a Catástrofe

Não consigo esquecer o Japão. O sismo. O Tsunami. A destruição. As perdas materiais e humanas. As consequências da catástrofe natural, imensa, aumentada vertiginosamente pela catástrofe criada  pela própria mão humana, através das explosões nucleares, num país onde a alta tecnologia não parece ter previsto semelhante drama.
 
Relembro imagens… e revejo despreocupações minhas e preocupações também que me preencheram alguns dias. Preocupações que partilhei espontânea, mas sinto tão pequenas agora, face a esta dimensão, ou outra escala.
Lembrei-me por isso, de transcrever o que nesse dia, sem saber de nada ainda, tinha escrito num dos meus cadernos.
 
Leiria, 11 de Março de 2011
 .
Gosto desta minha árvore….árvore que não é bem minha, mas com quem tenho uma estranha e secreta intimidade… da janela para a rua.
 
O mais que me aproximo fisicamente dela é junto ao muro que a cerceia.
E gosto dela a cada dia!
Visito-a todo o ano e dou comigo a apreciar-lhe cada gesto, cada pormenor perceptível, como se, sondá-la, me permita sondar-me a mim…
 
Faz-me companhia.
 
Uns dias sorrio, outros choro, quando a olho.
Chamo-lhe “minha”. A “minha árvore”, porque é a que tenho mais perto e, gostando tanto de árvores como gosto, nunca me cansando de admirá-las, dedico-lhes uma especial atenção e também especial carinho.
 
Olho-lhe para a copa, para os braços estendidos, contorcidos, nus ou vestidos e para o chão que, debaixo dela, fala de forma peculiar também, como se fosse lugar de privilégio.
Não creio que, mesmo a céu aberto, neste jardim abandonado de cidade, alguém vá lá tocar-lhe os troncos ou os ramos, acariciar-lhe as flores, as folhas, saborear-lhe os frutos, ou simplesmente a sombra…
…enfim, falar com ela! Quem sabe cantar-lhe, ou deixar-se embalar por ela…
 
Imagino ainda os múltiplos seres pequeninos que sob ela habitam, despercebidos. Crepitantes, atarefados, ou mesmo calmos, pacificados, enfeitiçados…
Como imagino a brisa a ondular as ervas que lhe fazem cama, aquela em que pernoita e onde se agita e dança, ou se excita, na explosão viva a cada ano.
 
Uma árvore simples, podem dizer-me. Modesta no tamanho.
Talvez mais uma razão para gostar dela e olhá-la sem pressa e sem cansaço, todos os dias, assim, deste espaço de  janela.
 
Nesta fase ainda se vê à transparência da copa, salpicada das  flores que despontam nesta época, o tronco e os braços, contorcidos, bailados, espraiados nas extremidades a estenderem-se além do que observo.
 
Tocam-se os braços. Espécie de carícia. Apelo musical sussurrado, ou forma pura, artística…
 
… e vejam como ficará depois, daqui a alguns dias que recordo do ano de ontem e do outro e mais outro passado, a lembrar o vindouro previsível, mas sempre novo!
 
Olhem-me que explosiva e cheia…
… como se em si coubesse,  a Primavera inteira!

 

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4 respostas a “A Minha Árvore” e a Catástrofe

  1. E cabe nela a Primavera inteira!🙂
    Também eu tenho algumas amigas que são árvores, Isabel… chamo-lhes “minhas” sem pejo porque sou, efectivamente, amiga delas e elas, à sua maneira, são minhas amigas… não somos amigas de grandes alaridos. Os nossos diálogos ficam-se por um “sentir fundo” que não se explica facilmente… ou de todo🙂
    Abraço-as – tantas vezes… – e, curiosamente, parece que é delas, também, que me vem essa necessidade de lembrar que há mais seres vivos para além de nós… estou, decerto, a fantasiar, mas o que seria de nós sem fantasias? O que seria de nós se, por instantes, não pudéssemos esquecer as eminentes catástrofes nucleares e outras injustiças?
    Abraço grande!

    • as árvores…
      …não é aprimeira vez que falamos delas… nem será a última concerteza, porque não me canso do que me fazem sentir e do fascínio que exercem sobre mim…
      …mistério e sabedoria… e esse «”sentir fundo” que não se explica facilmente… ou de todo»
      Entendemo-nos Maria João!
      Obrigada

  2. Teresa Ferreira diz:

    Também abraço as árvores, Isabel. Mircea Eliade no seu livro “A Árvore” diz-nos que a “árvore, com a sua regeneração periódica, manifesta a potência sagrada na ordem divina”. O tronco é como “o eixo vertical do mundo dos vivos, irrompendo das profundezas escuras das raízes e das cavernas e tendo por firmamento estrelado a copa – ou cúpula! – das folhagens, das flores, dos frutos.” Como diz uma amiga minha, talvez a árvore represente metonimicamente o Paraíso, e por isso as achemos tão belas. Não terá sido por acaso que terás escrito sobre a tua árvore, ainda sem saber de nada do que ocorria no Japão.
    Que o sabor da Primavera te preencha por inteiro por muitos e muitos anos. PARABÉNS, amiga! Sê feliz.

    • Querida Teresa
      … taõ importantes as árvores para mim que não me canso de olhá-las, ouvi-las, cheirá-las, senti-las, abraçá-las também… e suscitam-me sempre novas imagens e novas emoções.
      Não conhecia Mircea Eliade, nem esse seu livro a “A árvore”…. mas a frase que me trasncreves é fantástica e faz-me sentir e vibrar com o que diz, de tanto sentido e de tanto que tem para reflectir… sobre esse saber mágico e real!…
      Tenho um enorme respeito pelas árvores… amor, também. Fascínio!… e em tudo, sobretudo na magia que nelas sinto, uma enorme companhia, cúmplice e cheia!
      Obrigada pelas tuas palavras que me souberam tão bem.
      Procuro ser feliz, sim, bem sabes… mas é um caminho de construção e procura!
      Obrigada pelos Parabéns…
      …este dia mexe demais comigo, assim como os que o precedem e sucedem, também. Fase de reflexão que preciso redireccionar… sempre e a cada dia!
      Beijo grande, minha amiga!
      Sempre

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