Nuas…

Bastaram uns dias
apenas uns dias de desatenção
e quando voltei a olhar o jardim
as árvores estavam nuas.
 
Não vi caírem as últimas folhas…
ainda ontem estavam vermelhas, acesas na despedida
olhava para elas e repousava nesse brasido o olhar
como quem se aquece numa manhã fria…
 
Estão nuas.
Restam traços, como grafite a riscar espaço
a marcar presença e tempo,
a prender olhar nas diferentes formas.
 
E nuas,
delineiam-se
afirmam-se…
e gosto delas, assim.
.
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12 respostas a Nuas…

  1. Teresa Ferreira diz:

    E eu que hoje mesmo à tardinha passei um bom bocado a contemplar as árvores nuas sob o imenso céu azul a pensar justamente que gostava delas assim, nuas, despojadas, a prender-me o olhar. Ainda há tão pouco tempo viam-se algumas folhas. Muitas folhas caídas com todas aquelas cores do Outono. Hoje, já só os traços…
    Obrigada por voltares Isabel

    • coincidências e mais coincidências… e como me dizes, acho que tenho que ousar mesmo, Teresa.
      É de facto tão bom partilhar o que sentimos, vemos, aprendemos… o que queremos dizer de forma directa ou metafórica… tantas vezes das duas formas ao mesmo tempo…
      Foi o que me aconeteu com estes versos… a quererem dizer precisamente o que lá está… e metafóricamente, tanto a ver com esta minha ausência!…
      beijinho e obrigada eu, pela tua presença, aqui e na minha vida!
      Isabel

  2. Emília Pinto diz:

    Acontece-me tantas vezes a mim!!! Desatenção completa com as flores do meu jardim…com as pequeninas árvores que em vasos plantei; quando me decido a visitá-las nota-se o abandono a que as votei; o abandono delas reflete o meu sentir…o sentir-me abandonada pela vida, o sentir-me desalentada, o sentir-me sem rumo. Não tinha percebido que o jardim era o espelho da minha alma; ao ler os teus versos percebi….tenho que dar atenção às minhas flores, às minhas árvorezinhas…atenção a mim mesma. Um beijinho, Isabel e…quem sabe…amanhã, se o sol ajudar irei ver o meu jardim, irei olhá-lo de maneira mais atenta…irei cuidar dele com mais carinho. Um semana risonha, com muita luz, amiga!
    Emília

    • Querida Emília
      Como gostei das suas palavras, do sentido metafórico que deu ao poema, sentido que pode ter tantas interpretações, tantas direcções!
      … e que bonita a direcção que lhe deu…
      Sim, os jardins, como tudo, podem ser o espelho da nossa alma, porque afinal depende de como nos sentimos, a forma como vemos o que nos cerca.
      Espero que amanhã, com ou sem sol, possa ver o seu jardim… e possa cuidar dele com o carinho que merece, o que lhe será, por certo, retribuido no dobro!
      Tenha uma semana feliz, Emília.
      Obrigada por vir aqui.
      Isabel

  3. João Nuno diz:

    Querida Isabel,
    ao ler este “texto” senti, nas suas palavras, uma falta de qualquer coisa e uma sensação estranha a assolar os seus dias. Muito cansaço? Muito trabalho? Dias agitados? Situações complicados de resolver? Como se sente?
    Que as árvores despidas sejam apenas uma analogia entre este tempo que passa por nós e a necessidade constante de tempo…
    Um beijinho, um abraço e luz. Com saudades.
    João Nuno

    • … muito trabalho, de facto. Muita apreensão face aos dias que vivemos e a tantas situações que se nos deparam e que gostariamos de resolver…
      … e alguma da angústia existencialista de quem gosta de escrever e tem pouco tempo…
      Sim. O tempo passa por nós… e nós a necessitar de tempo!
      …mas ao memso tempo, fantástica a procura da aprendizagem da atenção necessária para viver cada momento!
      Estamos sempre a aprender, João Nuno.
      Obrigada…
      Também tinha saudades… e gostei tanto do seu texto sobre a sua necessidade de escrever! (http://joaonunomb.spaceblog.com.br/1156452/A-POESIA-DOS-POETAS/) Como o compreendo!
      beijinho amigo
      Isabel

  4. Fernanda Matias diz:

    Olá Isabel

    È o ciclo de vida das acácias e outras plantas e flores. Vão ser novamente envolvidas pela terra para, com sol e chuva á mistura voltarem a florir. Também connosco é assim.

    Um grande abraço

    Fernanda Matias

    • Querida Fernanda
      A natureza tem tanto para nos ensinar que podiamos e deviamos contemplá-la com atenção todos os dias e toda a vida… e nunca deixariamos de aprender com ela… assim como de compreendermo-nos melhor através dela. É o que procuro fazer.
      Obrigada
      Beijinho
      Isabel

  5. É a magia das árvores de folha caduca a redesenharem, no céu, a sua vontade de permanecer… gosto tanto desses desenhos “expressionistas” recortados contra o azul intenso de um dia de sol…
    Abraço grande!🙂

    PS – Apesar do frio, algumas árvores de folha caduca já começaram a despontar em pequeninos rebentos sedentos de ar e sol. Os abrunheiros quase sempre escolhem este mês gelado para iniciar a sua Primavera…

    • … é verdade, Maria João. Não me canso de olhar a natureza. Ensina-me tanto e espanta-me sempre a cada dia… Apetece-me dizer que esta fase é maravilhosa… mas confesso que todas são maravilhosas! Cada uma, à sua maneira.
      Beijinho amigo e obrigada
      Isabel

  6. João Nuno diz:

    Dão que pensar…as palavras de Miguel Esteves Cardoso no Expresso – “Elogio ao Amor”

    Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.

    Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

    Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.

    Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.

    Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá tudo bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

    O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

    O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

    Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

    A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

    • Adorei o que aqui colocou, João Nuno!
      Acredito profundamente no Amor e na importância do Amor…
      Gostei das palavras do Miguel Esteves Cardoso: Fortes!
      Acho que não tenho palavras… e para ficar mais visível vou publicar como post, porque aqui pode não ter a visibilidade que merece.
      Obrigada pela partilha.
      Beijinho muito amigo
      Sempre
      Isabel

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