Acto falhado!

Num Centro de Saúde, a habitual presença de muitas mães e crianças…
Lembro-me particularmente do cansaço daquele dia…
A sobrecarga de trabalho era evidente.
A falta de recursos humanos e inadequadas condições físicas, não diminuíam a afluência que era contínua… imensa.
Não havia tempo de intervalo entre cada conversa e o ambiente físico era particularmente ruidoso.
A necessária atenção era intensa… procurando ser global.
… e mães a necessitar falar, falar… e alguns dos bebés a chorar, outros a escorregarem-nos entre a necessidade de palavras e de escuta…
…as mães também cansadas… e sequiosas de respostas…
…e uma atenção constante e contínua… e nada a poder perder-se naquele mar revolto de gente e intenções e desejos e necessidades, desvendadas ou por desvendar…
Situações simples, outras menos simples. Algumas, complicadas.
Situações complexas, outras graves…algumas inacreditáveis…
…e ao final do dia, um zumbido nos ouvidos, a cabeça oca, a voz sumida, as pernas doridas e o espírito vazio na questão não respondida. A quem cheguei, afinal?
 
Num desses dias, já percorridas quase sete horas de particularidades mais ou menos complexas… uma grave.
Um bebé institucionalizado retirado aos pais, em fase de adaptação na instituição que o acolhia e a quem, solicita e empenhadamente o acompanhava, acarinhava, nessa ânsia de quem sabe a importância dos pais.
Era uma assistente social, preocupada, interessada, fantástica! Conhecia-a.
Já não era a nossa primeira conversa.
O bebé, nesse dia, particularmente agitado, gesticulava e chorava enquanto a assistente falava, falava… e eu, alternando o olhar entre os dois, rolhava a boca da criança com a chucha, oferecendo-lhe em simultâneo sorrisos e trejeitos apalhaçados e culpados, na consciência da descontinuidade de que não gostava. E ele chorava. E as palavras ferviam a perder sentido, ecoavam e vibravam a descontinuarem-se no sentido que se perdia, na meada desfiada.
Queria atenção… o bebé… a assistente social também… atenção a que estava habituada… e que naquele momento, não lhe podia ser dada…
Era evidente que se acendiam luzes amarelas no tablier da minha complexa máquina humana…
 
…sei que naquela confusão, entre palavras, sorrisos e gestos alternados com chucha e mais e mais palavras, a procurar serem atentas à assistente que falava, falava…
…dei comigo a quase enfiar-lhe a chucha a ela, num trejeito apalhaçado de quem se surpreende deveras, como se me caísse um espelho de consciência atempado que me imobilizasse cinematograficamente para a posteridade…
Parei no meu gesto falhado, a dois dedos da sua boca.
O bebé chorava. E eu, sem disfarçar, de expressão ainda incrédula, mantive a minha imobilização momentânea por eternos segundos que quis esquecer, que quis não ter visto, que quis não ter sido visto…
…e não resisti a dizer, entre risos nervosos e gestos perdidos, o que se estava a passar, ou o que tinha simplesmente acontecido…
Rimo-nos do acto falhado e virámos a folha do dia como pudemos.
Ela e eu… ambas conhecíamos este tipo de cansaço… e o significado deste acto falhado!
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18 respostas a Acto falhado!

  1. João Nuno diz:

    Fantástico o testemunho e confesso, querida Isabel, que, ainda que não tenha piada alguma, me imaginei a assistir à cena da assistente com a dita chuca em “quase-boca”.
    Hás dias terrivelmente cansativos, onde já tudo se transforma em necessidades constantes de luz e silêncio.
    Já está melhor?
    Desejo-lhe uma semana feliz.
    Um obrigado por tanto.
    Um beijo
    João Nuno

    • … a relembrar esse dia, com um sorriso, pode crer, só tenho que pensar que há mesmo dias assim!
      …quanto às melhoras…estou um bocado triste… desde ontem, apesar de “tanto juízo” e fazer “tudo direitinho”, tenho mais dores e não percebo! Será do frio? Hoje a fisioterapeuta dirá!… e vai melhorar. Tem que melhorar!!!!!!!!!
      Obrigada João Nuno
      Beijinho
      Isabel

  2. Marcolino diz:

    Olá Isabel!
    Belissima descrição desta cansativa vivência, pode crer que ne senti envolvido nela!
    Quanto às suas dores, confesso-lhe que também as tenho apesar de estar a cuidar delas. Será do frio mais intenso que as assanha, ou então é mesmo de mim. Confesso-lhe que até me doem as polpas dos dedos ao digitar neste teclado. Minha sorte é poder visitar hoje, a minha médica de familia, uma vez que tenho consulta marcada.
    Ela bem me diz que me considera um utente do Serviço Nacional de Saude porque cumpro à risca as suas indicações, mas o certo é que hoje me sinto, a 100% um doente do mesmo serviço…
    Depois conto-lhe como foi!
    Abraço
    Marcolino

    • …isto vai passar!…
      …malvado frio!… a quem não queria chamar malvado!
      as suas melhoras também!
      Abraço
      Isabel

      • Marcolino diz:

        … e fui à minha Médica de Familia que, como sempre o faz, me recebeu com toodo o seu carinho.
        Mais que meia cura…
        Mais uns dedos de conversa a par de um medicamento extra, para as minhas dores articulares.
        Gosta imenso de mim, pela forma jovial como ando sempre, e como lhe apresento as situações mais agrestes da minha saúde, sorrindo-me e ironizando…
        Hoje já acordei sem aqueles dores articulares que até tornavam em sacriificio o vir blogar, escrever, comentar e responder.
        Desejo que o mesmo, de positivo, se passe consigo, Amiga Isabel!
        Abraço
        Marcolino

      • …nestas alturas sabe mesmo bem ter apoio e uma palavra de carinho… e fico contente que se possa sentir melhor e assim conseguir fazer o que é importante para si.
        …eu estou a fazer o que me parece ser preciso… e com certeza vai melhorar.
        Beijinho amigo e obrigada
        Isabel

  3. A Isabel, além de uma profissional daquelas que nos fazem mais falta, tem a capacidade de nos transportar para aquilo que os seus olhos viram, que as suas mãos tocaram, que o seu coração sentiu e a que a sua mente quase, quase respondeu com o tal acto falhado…🙂
    Sei tão bem como isso é… tão bem que nem pode imaginar!
    Abraço grande!

    • Obrigada Maria João…
      …são alguns destes momentos que nos ensinam muito acerca de nós próprios e das nossas limitações…
      Sendo melhor vê-los pelo lado do humor, também permite reflectir sobre as condições por vezes sub-humanas em que temos que trabalhar, as limitações que nos são impostas por falta de recursos humanos e materiais e que não nos permitem dar o tanto que desejamos e queremos, de melhor. Quem nos procura, merece e precisa!
      Beijo especial para si, hoje, solidário com a sua revolta… seja ela qual for, expressa no seu blog… mas a desejar-lhe toda a força da “artista” que há em si e de que precisamos sempre!
      Obrigada,
      Isabel

  4. João Nuno diz:

    Amiga Isabel, vá-nos contanto sempre como se tem sentido. Se está a recuperar bem.
    Rezo para que fique bem num instantinho…quase, quase à distância de um clique:)
    beijinhos e bom feriado.
    João Nuno

  5. Vânia diz:

    Olá Isabel.
    As suas palavras, tão bem escritas, transportam-me para a pequenina sala de saúde infantil do Centro de Saúde.. Saudades..
    Apesar de não conhecer a assistente social imagino a situação, tão bem emoldurada e que se repete vezes e vezes sem conta, com outras mães, outros bebés!! São esses pequenos momentos de felicidade, talvez, que nos fazem acreditar naquilo que fazemos e nos dão força para continuar a lutar por um futuro mais sorridente!! São também eles que o valorizam!! As pequenas conquistas de cada dia tornam aquelas mães heroínas dos seus rebentos!!
    Em breve irei visitá-la.. (nas férias)!!
    Beijinho com saudade..

    • Querida Vânia
      …este episódio aconteceu há bastantes anos, já. Noutro Centro de Saúde. Mas apesar da melhoria de algumas condições físicas, no que toca ao presente, outras dificuldades se mantêm e dificultam a nossa capacidade de dar tudo o que temos e devemos dar, a quem nos procura.
      Sim a grande satisfação que temos apesar de todas as inseguranças e do muito além que gostaríamos de chegar, são as próprias mães e as crianças e os jovens e os outros técnicos que nos procuram e que connosco partilham dificuladdes e desejos dessa mesma ajuda. Não basta a intensão… que “de intensões está o inferno cheio”… é preciso lutar, acreditar e dar o que podemos, o que conseguimos. E sei que serás uma excelente enfermeira porque te preocupas verdadeiramente com os outros e lhes tentas chegar, com atenção, cuidado, respeito e carinho.
      Muitas saudades também! Espero que esse “fim de curso” esteja mesmo, mesmo a acabar.
      Obrigada pela visita, aqui e em qualquer lugar. És sempre Bem-Vinda!
      Saudades
      Abraço apertado
      Isabel

  6. Fernanda Matias diz:

    Olá Isabel
    Revi-me na situação de acto falhado que descreve.Quantas vezes tenho estado com crianças ao colo ou pela mão, retiradas das suas famílias e tentar, com os profissionais de saúde, que elas começem a reconstruir-se, ainda que seja, fisicamente, primeiro.
    Já tive muitos actos falhados e outros , acredito eu ( faço sempre por isso) que sejam os melhores e em que não falhe mesmo.
    Um dia uma menina de 5 anos , que havia sido preparada para ser retirada á Mãe e foi, disse-me a mim e ao Magistrado que acompanhou essa retirada , tal qual isto ” quero ver se me tiram do pó e me metem na poeira”. Garanti-lhe que iria ficar bem e ficou. Pelo menos até hoje, porque outros Pais a amam muito, tratam e a guardam.

    Um enorme abraço e as suas melhoras
    Gosto muito de a ler

    Fernanda Matias

    • Olá Fernanda
      Há situações dramáticas que felizmente têm resolução.
      …mas, aos profissionais que acompanham estas situações compete o cuidado e a humildade necessárias que diminuam a probabilidade dos erros fáceis de cometer… ou por situações indevidamente avaliadas, ou outras, cujo acompanhamento por vezes pode não ser o necessário.
      É fácil julgar os outros.
      Difícil, escutá-los e disponibilizar a ajuda necessária à mudança de comportamentos.
      E muitas vezes o que acontece é que somos poucos e com pouco tempo para dedicar a estas famílias, carentes em tantos aspectos!
      Pior, somos poucos, com pouco tempo e mesmo que profundamente empenhados, faltam-nos as redes de apoio e suporte, indispensáveis para os encaminhamentos adequados que possamos identificar.
      …acho que aqui… teríamos muito que falar… e acredito que possa sentir o mesmo.
      Ser Assistente Social não é nada fácil! Sei do esforço e empenho de muitas… e das suas frustrações também. Frustrações que são de nós todos que queriamos mais apoio, ajuda e tempo para estas e muitas situações!
      obrigada pela sua atenção e presença… e pela vontade de fazer diferença!
      Venha sempre!
      Abraço
      Isabel

  7. Fernanda Matias diz:

    Olá Isabel

    Concordo inteiramente com o que diz. Tantas coisas bem realizadas, mas outras tantas falhadas, por intervenções insensatas, introzivas e invazivas, sem o minimo entendimento das vidas e pelas vidas dos outros.
    Hoje a questão ( muito preocupante)a estudar e aprofundar é essa mesma: com que direito os multiplos profissionais e saberes, “tomam conta” da vida das pessoas e lhes traçam um triste destino, quantas vezes , para sempre.

    Um grande abraço

    Fernanda Matias

    • Olá Fernanda
      Fico contente com o que aqui diz e com a “questão preocupante a estudar e aprofundar” de que fala e que para mim considero crucial.
      Um tema muito importante que toca a todos nós, profissionais que trabalhamos com estas situações e principalmente a essas mesmas famílias que pressupostamente pretendemos “ajudar”! Um tema bem importante a estudar e aprofundar.
      Muito obrigada pela sua intervenção
      Abraço
      Isabel

  8. Fernanda Matias diz:

    Ola´Isabel

    Já respondi ao seu comentário, mas penso que o envio falhou. Assim vou repetir-me dizendo que concordo, em absoluto com o que diz.
    Há de facto, vidas dos outros que são alteradas para sempre, com boas intervenções. Mas há outras tantas, irremediavélmente estragadas por profissionais que, também , fazem muitos estragos.
    A questaõ premente e urgente é interrogarmo-nos sobre o que andamos a fazer com as famílias de fracos recursos ( emocionais, saude, económicos…)e como balizamos as multi-intervenções dos diferentes profissionais.

    Um grande abraço

    Fernanda Matias

    • Fernanda
      Chegaram os dois comentários e entendi que não havia mal a aparente repetição. Um reforça o outro… e até lhe vou pedir se posso entrar de forma mais directa em contacto consigo. Poderá ser através do E-mail que fica registado quando envia os comentários?
      Obrigada
      abraço
      Isabel

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