vozes nos gestos, a escutar!

Maria dirigiu-se pela 8ª vez nessa manhã, à sala de espera. Eram 11h.
A sala, longe de evidenciar sinais de acalmia, parecia-lhe cada vez mais cheia.
Mães, pais e crianças lotavam o espaço brincando no chão, nos colos, algumas a aventurarem uma escapadela ao corredor, apelativo.
Brinquedos espalhados, salpicavam o espaço.
Algumas mães acocoravam-se cuidadosamente junto dos filhos, gerindo uma ou outra birra de partilhas indesejadas.
Nas cadeiras, algumas mães amamentavam no momento de espera. Um pai segurava o bebé, enquanto a mãe preparava um biberão…
No canto oposto ao da porta de entrada, um bebé agitava-se num choro soluçado e ininterrupto, suando profusamente e desesperando a mãe que o abanava afadigadamente sem qualquer sucesso na intenção.
Era uma espiral ascendente de gente cansada, onde a amálgama de sons, exalava um ruído doloroso e insano.
À entrada, imediatamente junto à porta, um casal aguardava em silêncio. A mãe, cabisbaixa, mantinha a bebé ao colo, olhar no chão, enquanto o pai agitava sobriamente as mãos e os pés, num ritmo irregular e silencioso no meio daquele bulício. A filha de ambos dormia.
 
Ao entrar na sala, Maria passou uma das mãos pelos caracóis da criança mais próxima, outra pousou-a no ombro da mãe acocorada. Ergueu o olhar e um esboço de sorriso em toda a volta. Pretendia com mãos e sorriso abarcar cada um dos presentes… como se, nesse esforço de vontade e súplica, conseguisse atender todos e cada um, nas suas necessidades e no seu tempo… e  incutir-lhes simultaneamente, se possível, alguma da calma necessária a todos.
…Naquele momento, queria simplesmente que não tivessem que esperá-la… não tivessem que esperar as necessidades de cada um, para além das suas próprias… e na leitura que procurava nos seus gestos, escutá-los a todos, decifrar-lhes necessidades para além das que eles próprios supunham ou conheciam… e dar-lhes então, de forma gradual e serena, a confiança de se descobrirem e desabrocharem nesse papel de pais que tanto desejavam.
 
Um segundo imenso e ergueu a voz, adoçando-a quanto possível na chamada – Joana!…, enquanto sem resistir avançava na sala dirigindo-se em voz baixa à mãe que, em desespero, agitava a criança cansada…
 
Na resposta ao apelo da chamada, “o pai da entrada” agitou-se um pouco mais, acotovelando a mulher, num gesto de quem a pretendia acordada… e Maria regressou com a rapidez possível para junto de quem, daquela forma, subtilmente se identificava.
Acentuou o sorriso a abarcar uma tríade pressupostamente feliz e orientou com um gesto gentil as portas, dando-lhes passagem.
 
De regresso à sala de enfermagem, contígua à de espera, Maria acompanhou a silenciosa Joana, alheia a toda aquela parafernália.
 
Num gesto de festa irresistível, retirou quase imediata e instintivamente a sua mão do ombro de Marta, a mãe da Joana, que, de olhar difuso e também alheio, estremecera ao toque, como se fosse um gesto inesperado, invasivo e receado.
 
Marta entrou na sala de Saúde Infantil sentando-se na cadeira que Maria lhe ofereceu.
Mantinha o olhar desviado e esquivo, aparentemente indiferente ao sorriso que a enfermeira teimava manter.
 
Maria reforçou ainda parabéns com o olhar. Dirigiu-lhe palavras calmas e directas.
Enquanto fazia uma festa na cabecinha da recém-nascida, arredou outra cadeira para que o pai da bebé pudesse igualmente sentar-se e, aproximando-se tanto quanto pôde e o olhar arredio lhe permitiram, sentou-se junto dos três, dando início de forma aconchegada, à consulta de enfermagem.
 
Maria tinha consciência de que, naquele momento, aqueles pais queriam apenas que os deixassem rápida e simplesmente em paz…mas tinha igualmente consciência de que a sua forma e conteúdo de intervenção, naquela consulta, seriam cruciais para o não comprometimento das consultas seguintes, que, de forma evidente teriam de realizar-se em curto espaço de tempo, para benefício daquela tríade em plena crise.
 
O pai mantinha os mesmos gestos ritmados, supostamente a calar dúvidas, medos e um desejo enorme de ajudar, sem saber inesperadamente como, mas, sobretudo consciente de que, Marta, habitualmente extrovertida e confiante, lhe parecia uma Marta desconhecida e estranhamente distante dele e, pior que tudo, mesmo agarrada à bebé que era deles, se mantinha estranhamente longe até mesmo dela, apesar do colo, em gesto possessivo e quase obsessivo…
…algo de muito estranho se estava a passar e ele não sabia como pedir ajuda, muito menos a alguém que nunca vira e que estava ali, segundo supunha, para “picar” a sua frágil bebé…
 
Marta, por sua vez, aparentemente não pensava. Sentia!…
E era uma amálgama profusa de sentimentos que a surpreendiam e confundiam.
Instintivamente agarrava Joana, aquele ser que tinha sonhado, idealizado e que agora, na realidade, lhe parecia absolutamente estranho…
Instintivamente agarrava-a, na consciência de ser sua e no estranho sentimento que lhe emergia de ser seu dever, acima de qualquer outra pessoa, cuidar daquela menina que sentia e quase não via…
Apesar de todos os planos de entreajuda com o Rui, seu marido, agarrava-a silenciosa, desde a saída da maternidade, quase não a conseguindo largar desde a primeira noite passada em casa, contrariando todas as combinações entre ambos.
 
Uma coisa sabia. Sentia-se estranhamente exausta, frágil. Quase tão frágil quanto aquele ser que tinha abruptamente saído de dentro de si…
Doíam-lhe as mamas, anormalmente enormes e túrgidas que a Joana, estranhamente, não pegava com a facilidade esperada.
Doíam-lhe as mamas e a vulva, cortada, cozida…
Doía-lhe a barriga vazia, incrivelmente disforme, talvez para sempre…
Doía-lhe o medo, de afinal não vir a ser capaz… principalmente de dizer, simplesmente, que tinha medo!…
(…)
… e agora,  a Joana ao colo, dormindo, dormindo… pequenina  e frágil, mais frágil do que imaginara… e ela própria, quase tão frágil como se fosse ela a acabar de nascer, sem nada saber deste Mundo imenso e novo… e já cansada, extremamente cansada… e mais as dores nas mamas, enormes e túrgidas… e na vulva, cortada  e cozida… e na barriga, incrivelmente vazia e enorme…
…como enorme o medo que lhe devorava a voz e o olhar…
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8 respostas a vozes nos gestos, a escutar!

  1. Marcolino diz:

    Olá, Isabel!
    Sem muitas palavras: Simplesmente maravilhooso…!
    Abraço
    Marcolino

  2. Olá Isabel,

    Creio serem experiências inolvidáveis aquelas por que passa na sua vida profissional e que não são perceptíveis do exterior.

    A Isabel tem muita sensibilidade e doçura na forma como encara a vida e vai sendo raro hoje em dia no mundo cinzento do betão!

    Abraço amigo

    • Obrigada Manuel… este texto é muito sentido, embora extenso para post… e com repetições que ontem já não tive arcaboiço para limar… texto que pode ficar melhor redigido…, enfim, para quem gosta e quer escrever…
      Confesso que me apetece confessar todas as nossas dificuldades, tudo o que vemos, tentamos transmitir, mas que pouco interessam aquem poderia ajudar-nos a fazer mais e melhor.
      Poucos sabem de algumas realidades… realidades que são completamente alheias a muitos de nós, até para aqueles que as veem de forma clara e objectiva. É preciso ver com o coração, como diz o princepezinho…
      Para lá de cada um de nós, está um mundo em cada um de nós! O deles, o nosso!
      abraço
      Isabel

  3. Pode parecer-lhe estranho… ou não. A verdade é que as lágrimas se me esgotaram por excesso de uso :)… e não me nascem muito facilmente. Desta vez nasceram. Ainda bem que há gente que sabe ver com o coração. Vi esta sua tríade como se lá estivesse e compreendi que a Isabel os compreendia muito bem. Muito melhor do que eles próprios se podem compreender, de momento. Não sei dizer mais do que “ainda bem que há gente que vê com o coração!”
    Abraço grande!

    • Obrigada, Maria João… essas são lágrimas do coração, lágrimas de quem também entende para além do que muitos conseguem ver e sentir. Fico feliz por ter gostado. Escrever para mim é importante, se conseguir transmitir alguma coisa também importante para quem lê.
      Abraço bem apertado e amigo
      Isabel

  4. retiro do éden diz:

    Revivi o passado e continuo neste presente sombrio e desconhecido.
    …de afinal não vir a ser capaz… principalmente de dizer, simplesmente, que tinha (tenho) medo!…
    Hoje, neste presente, o tempo passado, voltou e pergunto-me…até quando?!
    Abraço
    Mer

    • Mer
      …dificil identificar e dizer a propósito de palavras que transparecem dor, a que não consigo ser indiferente.
      Perdoe se não sei quem é a Mer…
      …mas o que não consigo deixar de dizer agora, nessa atitude de não ser capaz de ser indiferente às suas palavras…
      …o passado faz parte das nossas vidas… é fonte de experiência e aprendizagem… mas deve ser e é passado.
      …o medo, também faz parte de nós e da própria vida… e, ou nos bloqueia e condiciona, ou nos catapulta… e nos permite prosseguir, sempre, mais e mais…
      …ter consciência do medo (e há tantas formas de medo…) é um passo importante para que ele não nos bloqueie. Ao contrário, que possa catapultar-nos e fazer-nos prosseguir e aprender mais e mais, de preferência, até sempre.
      … e se esse medo nos bloqueia de alguma forma, se interfere com a nossa vida tornando-a “sombria” e “desconhecida”… devemos procurar ajuda, falar, partilhar com alguém, de preferencia alguém que tenha pelo menos alguma preparação para o fazer… por vezes esse é o primeiro passo para aprendermos mais acerca de nós e do que somos capazes de fazer.
      Por agora, Mer, um abraço de força…
      …se eu puder ajudar de alguma forma…
      Sempre
      Isabel

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