A descoberta da efemeridade

Deus dotou-me de muitos dons. O da sensibilidade, o da paixão, do entusiasmo, do amor, o da vontade, do prazer, mas dotou-me de um muito especial que só agora começo a entender!… o “dom” da fraqueza. E este é especialmente importante tê-lo descoberto, porque com ele comecei a aprender a humildade, a compaixão, a efemeridade das coisas, a importância do aparentemente menos, do pormenor, do momento!…
Sou “fraca”. No assumir dessa minha fragilidade, resumo grande parte da minha condição humana. Ao lembrar-me dela, aceito o quanto sou pequena face à grandiosidade do que me cerca. Aprendo a importância da disponibilidade interior para a abertura a tudo o que é externo e interno… entendo a fraqueza dos que me cercam, abro caminho à compaixão pelos outros, por mim mesma!
Esvazio-me nesse acto de me assumir frágil. Até aqui, não me parecia ser algo de que me pudesse orgulhar. Escondia-o de mim mesma e esvaía-me sucessivamente, na luta constante e tantas vezes infrutífera, de ser a “fortaleza” que todos procuramos edificar em nós e que nos parece importante apanágio e forma de reconhecimento por parte dos outros.
Existem de facto os “fortes”?!?…
Mais tranquila, depois de esvaziada de pressupostos limitadores e limitantes, sinto-me também mais liberta.
…E é bom ter a percepção da energia emanada pela natureza, pelos próprios homens. Sentir a energia cósmica. Captar “tudo” com humildade e, nessa postura de recepção, sentir o quanto todo o envolvente nos aquece, nos enriquece e nos permite crescer mais um pouco, nos impulsiona no caminho da procura de nós mesmos e do nosso aperfeiçoamento, do nosso desenvolvimento pessoal.
Assumidamente frágil, consciente das minhas fraquezas humanas, sejam físicas ou da alma, certa da minha efemeridade, sinto-me mais disponível para fazer parte de um todo que é o mundo tão belo que nos cerca.
Possa eu humildemente ajudar a preservá-lo, possa eu semear, regar e a cada gesto de um trabalho laborioso e consciente, permanecer tranquila, inundada pela magia de ter percepcionado esse dom da fragilidade e assim entender um pouco melhor a humanidade.
.
Publiquei este texto em 21 de Julho de 2005 no Jornal de Leiria.
Achei importante para mim transcrevê-lo para aqui, como se tivesse de o repetir a mim mesma e reflectir de uma forma mais madura sobre o significado que tem ainda para mim. Não tenho conseguido escrever. Por falta de tempo. Por cansaço. Tenho pena. Mas regresso, mesmo com algo que já estava escrito, mas cujo sentido se mantém aceso mais do que nunca: a necessidade da consciência do que somos, do que somos capazes, da importância de nos aceitarmos com as nossas limitações…. e “aceitar” não significa resignarmo-nos e deixarmo-nos estagnar por essas mesmas limitações que vamos conhecendo… significa aprender a progredir, querer progredir e crescer, consciente de que elas existem.
Amanhã é um novo dia!
Agradeço profundamente a todos com quem tanto tenho aprendido neste espaço e que me têm dado tanta força, incentivo e carinho.
A todos o meu profundo obrigada.
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10 respostas a A descoberta da efemeridade

  1. Olá Isabel,

    Não posso dizer que não tenha gostado da maneira como a Isabel escreveu este artigo: escrita limpa, frases muito bem construídas e as ideias claras e expressivas, aliás como normalmente faz.

    Desta vez achei que era longo demais o seu “apouquamento”: eu explico.

    Sei que a sua profissão é a de estar junto de quem precisa doação, entrega e amor e tudo isto dado com simplicidade. Tenho a certeza que o faz muito bem e excede-se e sinto que é muito apreciada e amada, até.

    Nada tenho contra a humildade quando é acompanhada pelo exercício de qualquer outra dita “virtude” ou qualidade – exemplifico: sou humilde mas sincero ou sou humilde e dou amor.

    Dito isto e sem me achar um deus do Olimpo disfarçado que se passeia entre os pobres mortais…eheheeh…sabemos o que valemos, devemos orgulhar-nos de termos os tais “dons” que nos tornam diferentes da maioria, não por especial soberba ou superioridade, mas por inteligência. Bem sei que na maior parte dos casos, inata. No entanto deve ser desenvolvida, potenciada e optimizada.

    Ser-se inteligente não é impeditivo de se saber ser humilde quando é necessário – remeto para o que acima disse – mas não se PODE querer ser rasteiro e cinzentamente igual a toda a gente….intelectualmente, pelo menos!

    E não se trata de falsa modéstia – ser-se uma óptima enfermeira como a Isabel é – é motivo para “superioridade” pois deu e dá-lhe trabalho para chegar à excelência (in search of excellency) enquanto que os simples de espírito, sem rasgos nem grandes luzes vivem uma vida sem brilho, baça! Obviamente com todos os direitos que lhes competem…blá,blá,blá!

    Há quem goste, porém eu não! É preferível que me critiquem, que discordem, que falem de mim do que ser recordado como um “bom rapaz” quando passar desta para melhor…

    Espero que consiga perceber que o que pugno para si é o “rank”, o posto e o lugar a que tem direito, sem favor, devido à sua inteligência, capacidade de bem se exprimir e também à sua bondade.

    Nada disto é incompatível….temo-nos desencontrado no Olimpo….mas Zeus convocou uma assembleia magna dos deuses, para discutir um assunto tão maçador – a porcaria que os humanos estão a fazer num país chamado Portugal! Lá estaremos!

    Deve ser das horas…

    Um beijo amigo

    • Manuel
      Talvez transpareça um certo “apouquamento” nas minhas palavras em alguns “lugares”.
      Mas não é só de “apouquamento” que se trata. É de consciência e crítica social também. E é um passo em frente também nessa vontade que tenho de aprender e de crescer.
      A nossa sociedade rege-se pelo apanágio dos fortes, porque “dos fracos não reza a história”…
      … e quem são os fortes?
      O que me proponho é uma caminhada ousada, difícil. Ousada precisamente pela tomada de consciência da nossa efemeridade, da nossa fragilidade, que, consciencializada, nos deve tornar mais capazes de procurar mecanismos de copping que nos permitam descobrir energias nesse caminho longo e solitário. Importa que tenhamos consciência de nós e dos outros com as nossas dificuldades e necessidades, mas também com as nossas capacidades e sobretudo com a nossa vontade e trabalho.
      Só quero saber caminhar com as minhas fragilidades. E tudo se aprende, se quisermos aprender. Mas leva tempo.
      Quanto tempo? Não sei.
      O Manuel tem-me dado uma força enorme. Sei que me encoraja sem papas na língua, nem falsas simpatias. Sei que me “pica”, no bom sentido e, de certa forma me diz “acorda e luta”.
      Já estou a ir a luta!!! Com avanços, recuos… mas não quero desistir. De mim. Dos outros. Da vida como acredito que deve ser.
      Leia por favor o comentário da Zilda e a minha resposta… um acréscimo ao que quero dizer.
      Acredite que me tem ajudado, muito. E sei que vai continuar a ajudar… e eu, vou procurar conseguir!
      Um obrigada, enorme
      e um abraço forte e amigo
      Isabel

  2. zilda cardoso diz:

    Não creio que seja dotada de “fraqueza”, mas sim de simplicidade, de humildade, se quiser. Gostei de ler agora que está a aprender a progredir, e a querer progredir e crescer.
    Concordo que é bom ter “consciência do que somos, do que somos capazes, da importância de nos aceitarmos com as nossas limitações…. e “aceitar” não significa resignarmo-nos e deixarmo-nos estagnar “. Exactamente, de acordo. A Isabel sabe do seu valor, acredita nele, e sabe que só assim pode progredir – a partir desta plataforma ou deste nível.
    Eu também sei do seu valor. E sabem todos os que a têm lido e admirado.
    Estamos todos de braço dado a viver esta nossa AVENTURA.

    • Querida Zilda
      Na nossa sociedade é mesmo difícil aceitarmo-nos nos momentos de fragilidade em que tudo nos parece mais lento e difícil. E esses momentos existem, quer pela condicionante física de que somos feitos, quer pela psicológica que geralmente se indissocia da física.
      Estou convicta sim, de que quero trabalhar-me e trabalhar no sentido do crescimento e desenvolvimento pessoal, meu e dos que se cruzam no meu caminho.
      Nesse trabalho, aprender a progredir, aceitando os retrocessos ou as paragens inerentes a essa aprendizagem e consequentemente, a essa progressão é um trabalho moroso e difícil. Ás vezes muito difícil!…
      Ainda bem que existem “outros” que nos amparam, acarinham, reforçam e muitas das vezes nos vão dando importantes pistas e direcções nesse percurso tão solitário.
      Mas sei que quero continuar… e, como diz a Laurinda Alves citando o Padre Alberto, “(…)não importa onde estamos, aqui e agora, nem como estamos; só importa para onde vamos. Ou seja, a vida avalia-se pelo rumo, pelo sentido que lhe damos, independentemente de, aqui e agora(…)”… e confesso que para a maioria de nós o “aqui e agora” tem um peso enorme!
      Mas obrigada por estarmos “todos de braço dado a viver esta nossa AVENTURA”!
      Com profundo carinho
      Isabel

  3. Ah, esta nossa tão incompreendida efemeridade… e não será ela que nos vai tornando, por vezes, sublimes?
    Vi, ontem, o Prós e Contras – vi mal porque a antena caiu e ainda não vieram colocá-la – e identifiquei-me com cada palavra do Capelão do Hospital de S. João, o Padre Nuno. Que falta nos faz a humanidade e a presença de alguém amigo, no momento da morte… as pessoas deixam-se levar pelo ram-ram dos trabalhos de higiene, limpeza e administração de fármacos e esquecem, tantas vezes, a importância de um gesto tão simples quanto a mão na mão… e é necessário que haja tempo para isso! Se não houver, invente-se! É urgente!
    Um grande abraço!

    • Tem razão Maria João.
      É mesmo urgente!
      Pena que a saúde em Portugal esteja cada vez mais a tomar rumos economicistas, com reduções cada vez mais drásticas de recursos humanos onde são cada vez mais indispensáveis.
      É terrivel a realidade de alguns hospitais, de alguns serviços…, mas ainda há gente fantásticamente humana que tem uma enorme competência técnica e humana… e alguns que ainda têm a “sorte” de morrer com companhia, carinho, atenção e dignidade.
      Só que não devia ser “sorte” de alguns, mas um direito de todos nós.
      Obrigada pela sua abordagem tão importante.
      Um abraço bem forte…

      • Eu acredito nessa “fatia” da humanidade, Isabel! Acredito mesmo! Se não acreditasse, muito provavelmente nem aguentaria viver. Parece-me que a Isabel faz parte dessa “fatia” e eu só queria mostrar-lhe que alguns de nós estamos conscientes disso… e agradecidos, também.
        Eu passei por uma morte clínica – é mesmo verdade, não estou a efabular – e tive a plena consciência de que estava a morrer por choque hipovolémico. O sangue não se exteriorizava porque a cabeça do bebé estava a servir de tampão, mas eu estava já com uma enorme hemorragia interna e mal tinha forças para respirar quando ouvi uma voz feminina que nunca mais esquecerei:
        – Senhora!!! Faça força, não seja preguiçosa! Assim está a matar o seu filho!
        Eu sei que estas frases podem sair-nos sem querer, mas uma assistência mais correcta poderia ter evitado tanta coisa má… nunca cheguei a ver a pessoa que me lançou estas palavras porque já estava “mais lá do que cá”, mas elas ficaram bem gravadas em mim e levaram anos a deixar de me perseguir. O menino morreu mesmo e eu só acordei – por milagre ou quase – muito tempo depois, histerectomizada, noutro hospital. O monitorizador daquele estava avariado… como deve ter calculado, houve ruptura uterina durante o parto que, ainda por cima, foi pélvico. Administraram-me, seguidas, doze unidades de sangue e o stress pós traumático que vivi nos anos subsequentes não se deseja nem… ao diabo!
        Agora não me estou a queixar… já passou e eu sobrevivi, mas há testemunhos que podem alertar para situações futuras e todos nós tendemos a encontrar qualquer coisa positiva, quando passámos pelo inferno… pode ser que estas palavras venham a alertar alguém para uma situação deste tipo.
        Abraço grande!

      • Querida Maria João
        Essa é uma história triste e compreendo de uma forma profunda o que sente, o que sentiu. Lembro-me que, num dos primeiros “estágios” que fiz na Maternidade Alfredo da Costa, bem jovem ainda, me chocaram algumas frases que preferia não ter ouvido. Jurei que nunca seria assim… mesmo não gostando de jurar. E confesso que nem sempre tive a vida facilitada por procurar ter uma atitude profissional congruente com o que acredito e defendo.
        Como lhe disse, felizmente há muitos enfermeiros e médicos extraordinariamente humanos que nos marcam pela positiva. Guardo alguns no meu coração mantendo por eles um profundo respeito, admiração… e um profundíssimo carinho.
        Sei que tenho evitado falar da saúde e dos técnicos de saúde em Portugal. Da medicina e da enfermagem em particular. Talvez seja por chegar profundamente cansada a casa no final de cada dia de trabalho e porque, reflexões sobre o que nos está particularmente próximo devem ser também particularmente cuidadosas.
        Mas sei que é uma questão de tempo disciplinar-me para o conseguir…
        …ou tempo de fazer opções para as quais ainda não estou preparada.
        Mas agradeço profundamente esta sua partilha que, se um dia me permitir, poderá servir de mote para um ponto de partida para algumas reflexões que não posso continuar a adiar.
        É mesmo muito bom tê-la por aqui.
        Como diz a Zilda, através dos comentários que recebo poderei não só reflectir mas também descobrir muito sobre o que afinal desejo escrever e partilhar.
        Com todo o carinho, só posso agradecer de novo a sua participação, a sua transparência que me toca e comove profundamente.
        Espero que esteja melhor…
        Um mimo especial e um abraço de força
        Sempre,
        Isabel

  4. João Nuno diz:

    Querida Isabel, são quase 4 da manhã e já não consigo escrever em condições. Apenas com a certeza de que amanhã passo aqui com calma para comentar tudo….o que tanto gostei de ler.
    Com a certeza de que, mesmo não a conhecendo pessoalmente, tenho por si um carinho enorme.
    Com toda a alegria do momento
    João Nuno

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