Dia Mundial da Saúde Mental

Felizmente hoje fala-se mais de Saúde Mental.
Mas continuam a estigmatizar-se as doenças e os doentes mentais.
Toleram-se, nos outros e em nós próprios, doenças do foro físico. É um mal que ninguém quer, mas que uma vez diagnosticado, justifica sintomas e torna quem delas padece, alvo de atenção mais específica e de alguma condescendência por parte dos outros.
Aceitam-se e tentam compreender-se as fragilidades manifestadas e, não minimizando o mal-estar ou dor de quem as padece, procura dar-se todo o apoio possível, quer sob o ponto de vista físico, quer sob o ponto de vista psicológico.
Aceita-se que quem padeça de alguma doença, aguda ou crónica, que tenha alterações da  sua saúde mental. Felizmente  já se começa a providenciar um apoio mais holístico… e  naturalmente é mais evidente por parte de familiares, amigos, entidades patronais e profissionais de saúde, uma maior atenção e tolerância para quem se encontra “doente”.
Compreende-se que a falta da saúde física, justifica a fragilidade, a falta de forças, alterações de humor, sejam manifestadas por tristeza, desânimo,  ou irritabilidade  e intolerância.
Quem não as sentiria?
É humano.
E nos doentes mentais?
 
Felizmente hoje fala-se mais de Saúde Mental.
Até acredito e vejo o crescente interesse por esta área.
Cada vez há mais quem alerte para a gravidade das repercussões da doença mental na economia dos países, quer pelo absentismo, quer pela crescente taxa de suicídio que provocam.
Mas continuam a estigmatizar-se as doenças e os doentes mentais.
Não se tolera tão facilmente, nem nos outros, nem em nós próprios.
É um mal que também ninguém quer, claro! Um mal que tememos consciente ou inconscientemente. Um mal que transportamos quase geneticamente pelo que a história nos relata. Mitos que perduram no subconsciente social e que nos fazem pressentir que, perante a doença mental, para além da dor, existe o medo da solidão que lhe é inerente. Solidão provocada pelo afastamento dos níveis de consciência de que a maioria dos “saudáveis” se sentem detentores e consequentemente com o poder de ostracizar quem se desvia!
Mas é mais difícil que se aceitem e compreendam as fragilidades manifestadas por quem sofre de forma aguda ou crónica, momentânea ou perene, de doença mental.
São, na maioria dos casos, fragilidades que se rotulam de  preguiça… e os doentes mentais são facilmente considerados pouco inteligentes, instáveis e até perigosos.
Não se pode contar, nem confiar neles!
Minimiza-se assim o mal-estar ou a dor de quem delas padece. E esquece-se que as dores que manifestam, do corpo ou da alma, são reais…
…e ainda não é dado o apoio necessário e possível, quer sob o ponto de vista físico, quer sob o ponto de vista psicológico, porque importa relembrar, as doenças mentais não se tratam apenas com drogas. É indispensável a componente psicoterapêutica!
Mas as drogas são o recurso mais frequente, tantas vezes de forma abusiva… e se já se reconhece essa necessidade em quem padece de doença física, porque não reforçar esse apoio a quem sofre especificamente de doença mental?
Falta-lhes depois, a tal atenção e tolerância por parte de familiares, amigos, entidades patronais e alguns profissionais de saúde…
Será esta falta de apoio provocada  pela falta de conhecimentos e investimento nesta área tão importante?
 
Felizmente, hoje fala-se mais de Saúde Mental.
Mas há muito  a fazer.
A saúde física e mental é indissociável.
É preciso que sejam postos em prática programas de promoção de saúde mental. Programas de promoção de saúde geral. Programas de promoção e de educação para a saúde!
 
A nossa sociedade está doente.
Não sabe comer, não sabe dormir, não sabe respirar, não se sabe mexer…não sabe que quer saber, que gostaria de saber, nem o que necessita saber…
…por isso, pode e deve fazer-se promoção de saúde mental desde o nascimento, sendo necessário apoiar as mães, os pais, as famílias grávidas…
…e depois do bebé nascer…
…e ao longo de todo o processo de crescimento!…
Importa promover e difundir espaços de reflexão e de apoio à Parentalidade, às famílias, ao longo de todo este percurso… pais enquanto pais, filhos enquanto crescem… nas escolas… nas associações, nas paróquias…
É urgente ultrapassar os muros dos Centros de Saúde. Ir ao encontro da comunidade de uma forma mais efectiva e abrangente, mais conscenciosa  e mais articulada…
Ajudar a promover a saúde mental, ajudar a compreendê-la… e conhecê-la melhor! Ajudar a descobri-la em conjunto. Uns com os outros!
A saúde mental é a base do nosso bem estar e do nosso equilíbrio individual e social.
 
Felizmente hoje fala-se mais de saúde mental.
E há de facto quem lute para a sua promoção!   
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , . ligação permanente.

4 respostas a Dia Mundial da Saúde Mental

  1. João Nuno diz:

    Querida Isabel,
    Já é muito tarde e já estou com muito sono, mas não podia deixar de comentar este seu texto tão bonito e tão profundo. Tão cheio de vida.
    Orgulho-me muito de já ter feito voluntariado com doentes mentais e de pertencer a um movimento – Juventude Hospitaleira – http://www.juventudehopsitaleira.org – que valoriza esse carisma, proporcionando aos jovens reais encontros com a hospitalidade. São muitas as actividades de fins-de-semana, campos de férias, retiros, exercícios espirituais, etc, que o movimento oferece a jovens entre os 13 e os 30.
    Com os utentes das Casas de Saúde Mental aprendi a ver a vida com mais cor. E aprendi também a não julgar e a acreditar, como disse S, Bento Menni, que “mais vale exceder em misericórdia do que em justiça”.
    Um beijinho enorme
    (a ver se lhe escrevo um mail a contar novidades. Saudades)
    JN

  2. Esta espécie de loucura
    Que é pouco chamar talento
    E que brilha em mim, na escura
    Confusão do pensamento,

    Não me traz felicidade;
    Porque, enfim, sempre haverá
    Sol ou sombra na cidade.
    Mas em mim não sei o que há

    Fernando Pessoa

  3. João Nuno diz:

    Deixo-lhe este pensamento de Agustina Bessa-Luís, neste seu dia…

    «Cada voz está só e é única e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa».

    Beijinhos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s