Idade Sandwich

 
Ainda outro dia olhava para os meus pais sem me preocupar com a idade. A deles claro, porque  a minha, me interessava sobremaneira.
Vivia a fase em que, mesmo sem me perguntarem a idade, desejava dizê-la… e fazia-o com o orgulho de quem tem pressa. Pressa de ser adulta, convencida de que, com uma simples data, adquiria um estatuto num degrau acima… degrau que afinal me ocuparia tantos os anos a subir.
De facto creio que pode ter sido comum a muitos de nós passarmos pelas fases em que, com um sorriso por parte dos mais velhos, nos ouviam dizer: quase dezoito!… na sequência dos quase 6, sim ao cinema, quase 13, pertencer aos “teenager”, quase 16, vislumbre da primeira discoteca… e …quase dezoito, vir a passar ao estado de adulto, como se de reacção química se tratasse, com dia e hora marcados e o resultado inerente e automático. Como a possibilidade de adquirir ou conquistar  a carta de condução. Pronto! Passava a ser adulta. Vista como adulta… embora mais por mim, que pelos outros, claro!
… e agora que assumo com orgulho, mas mais prudência, a minha idade real… fazendo-a durar todo o tempo a que posssa ter direito e sem pressas sinto-me na “idade sandwich”:aquela em que ainda tenho o privilégio de olhar para cima  e ver os meus pais, vivos, mas a necessitarem de uma atenção especial… e para baixo, para os meus filhos que tendo já entrado na sua adultez, precisam ainda de uma atenção de que não têm consciência, felizes por já terem ultrapassado os limites mais próximos que dão a periclitância a essa adultez desejada – uma com 25… “quase” 26… e outro recém-chegado aos 20!
Sorrio.
Claro que me custa a consciência de todas as limitações que os meus pais já têm e lhes custa ainda aceitar. Como me custa não poder dar-lhes todo o apoio e companhia que desejamos de parte a parte.
Custa-me  a distância que torna os dias, como o de ontem  junto ao Tejo, um rio e um estuário enorme de recordações.
Custa-me que precisem de mais do que das suas pernas para se deslocarem… e custa-me sobretudo que, assim de repente, me pareçam, tão incrivelmente pequeninos e frágeis… precisamente agora, em que, de pé, olho necessariamente para cima para fitar qualquer dos meus filhos nos olhos…
Sendo eu pequenina que pequenez é essa, assim, física, a dos meus pais, de que não tenho memória?
Filhos crescidos, pais pequeninos sinto-me no meio a repartir direcções de olhares e interesses…e a descobrir tanto de novo  e tanta coisa…
Mas agrada-me que mantenham todos eles gargalhadas francas, precisamente  e sobretudo nestes dias em que nos vemos ao vivo e nos juntamos todos… e não temos de nos limitar a conversas através de fios!… é que desejo acreditar em fios, apesar de tudo, como se, se existissem de verdade, me permitisem uma ligação mais física a esses pais e filhos, a quem, no dia-a-dia,  apenas posso chegar através da voz!
Pois. Sinto-me na idade sandwich. Aquela em que corremos entre os filhos e os pais, na ânsia de chegarmos a todos com a mesma intensidade…
Idade sandwich: procuramos ser na proporção certa. Encontrar nessa proporção certa, a consistência, diversificação, conteúdo… assim como as calorias, o valor energético, o equilíbrio… e sobretudo o sabor que permitam manter o contacto directo e a união com cada uma  e entre as diferentes partes.
Que Deus nos ajude!
 
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6 respostas a Idade Sandwich

  1. João Nuno diz:

    Querida Isabel, que bonito texto.
    Terminei com as lágrimas nos olhos. Terminei também a sorrir e a pensar nos meus pais.
    Tão reais as suas palavras.
    Ia escrever-lhe hoje um e-mail (saudades das partilhas com amizade), mas já estou tão cansado que não consigo mais. Prometo que será das próximas coisas a fazer nestes dias. A minha irmã será operada 4ªf e terei a minha mãe em casa, comigo, em Lisboa, nestes dias…! Ainda assim, conto contar-lhe (redundâncias à parte!) os meus últimos tempos.
    Para si, toda a ternura do mundo e um obrigado.
    João Nuno, amigo.

    • Só desejo que corra tudo o melhor possível com a sua irmã… e que goze bem essa estadia da sua mãe que calculo preciosa!
      Aguardo a sua disponibilidade, sabendo que por vezes estes dias não são generosos na abundância de tempo…
      Obrigada por toda a sua ternura e confiança
      Sempre,
      Isabel

  2. Gostei muito. Vc escreve muito bem, gosto da maneira como organiza as ideias que saem soltas e com encadeamento. Devia pôr-se a escrever livros sem ser só neste blogue.

    Just an idea:-)

    • Manuel
      …gostava de saber responder a este seu amável comentário…
      … mas vamos deixar passar algum tempo… e ver se consigo sequer, manter este blog!🙂
      Agradeço o seu reforço, tão positivo para quem gosta de escrever.
      Com amizade,
      Isabel

    • zilda cardoso diz:

      De acordo consigo, Manuel. Será um desperdício se a Isabel não escrever, mas o blog é um bom começo, disciplinador. E pode dar-se contas das reações imediatas daqueles para quem escreve. Por que, é claro, vai escolher o seu público, os seus leitores, ao ver as diferentes reacções dos diversos leitores aos diferentes textos. Terá o que lhe agrada mais escrever o interesse da maioria? Ou não lhe interessa maioria nenhuma e vai mesmo escrever o que lhe agrada mais a si? Neste caso, não é importante que gostem de si? Ou vai escrever o que agrada mais a um certo grupo?

      • Querida Zilda
        Tinha já escrito uma resposta que se perdeu provavelmente a carregar, sem querer, num botão errado.
        Tenho pena de a ter perdido. Não tenho jeito para repetir o já dito e hoje foi um daqueles dias de “enxaqueca” que a Zilda tão bem conhece.
        Mas sendo um desses dias, não o vou riscar, no entanto, do calendário!
        O incentivo dado por si e pelo Manuel é para mim muito importante. Muito mesmo. E não queria deixar de o agradecer hoje e aqui!
        “A escrita é uma tentação”… uma tentação em que caio ciclicamente desde muito jovem… mas descontínua, avulsa… e por vezes convulsiva.
        Disciplinada? Muito pouco. Embora para muitos o pareça. Mas acredito na importância do esforço e da disciplina em si. Procuro-a em muitos campos da minha vida.
        Público? Acho que quem escreve deseja ser lido. A escrita é uma forma de partilha. Já pensei que me bastava escrever só para mim. Escrever apenas. Mas não.
        Que público? Não sei confesso. Mas sei quem mais gosto que me vá lendo… ou quem gostaria que me lesse… Como sei quem gosto de ler.
        Escrever para eles? porque não? Mas à minha maneira. Não saberia fazer de outra forma… embora esse, ” à minha maneira”, exija aprendizagem, trabalho, humildade, correcção… ajuda por parte daqueles que sabem mais e têm mais experiência… aí vem a escolha dos “mestres”. Precisamos tanto deles! Claro que precisamos da opinião dos outros… mas acho que não se pode escrever sobre o não se sente… é um mergulho fantástico e diria que é das coisas que mais gosto de fazer!… inventar também, porque não? A imaginação pode ser fantásticamente apaixonante… sente-se o que se inventa? Creio que se pode sentir de tantas maneiras!…
        …acho que ficava aqui horas…
        …mas vou reflectir seriamente sobre estas questões tão bem colocadas e tão importantes.
        Sim. Gostava de escrever. Tenho medo. Ainda preciso de aprovação. A difícil aprovação por parte daqueles que admiro e que gosto de ler também.
        Obrigada pelo desafio, por essa confiança que afinal eu não tenho e confesso que procuro.
        Muito obrigada por estarem aí. Aqui.
        Têm sido muito especiais para mim.
        Mesmo chocha, um abraço apertado aos dois.
        Venham sempre.
        Isabel

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