O ecrã

Paro frente ao ecrã.
É sempre difícil começar, como difícil encetar o que quer que seja.
Hoje, na nebulosa luminosidade do ecrã à minha frente, o vazio de palavras. O vazio do desconhecido, cujo medo inerente combato à força de crença e de vontade de preenchê-lo.
Pincelo cada momento, no desritmado teclar do pensamento, como se materializasse a vida.
Tenho medo.
Tenho medo, mas avanço.
Avanço na nebulosa luz ponteada que devagar preencho.
Avanço na vontade de viver e fazê-lo com consciência. A cada passo, a cada palavra, gesto, sentimento.
Pequeno e enorme, o mundo das dualidades e das escolhas. Das necessárias exclusões. Dos riscos.
Pequeno e enorme, cada passo.
Mas, presente, sempre, o medo.
E, face ao medo, presente, a vida. Essa que se vive, apenas vivendo.
Onde ficamos nós, sem a coerência de viver de acordo com o que procuramos?
Onde vamos afinal, se não encetamos caminho?
Quem somos, se não nos permitirmos?
 
Paro frente ao ecrã.
É sempre difícil começar, como difícil continuar.
No acto de encetar, a noção da quebra, da descontinuidade.
No acto de continuar o encetado, a responsabilidade da manutenção, conservação, prossecução…
Hoje, na nebulosa luminosidade do dia, a nebulosa luminosidade da vida. A procura tacteada, o atear dos sentidos na descoberta, a cada dia.
De mãos dadas ao medo, fazemo-nos mutuamente companhia. Tornamo-nos companheiros de jornada. Aguardamos intimidade… o medo e eu, quem diria?
 
Paro frente ao ecrã.
É sempre difícil começar, como difícil continuar, como difícil também, parar.
E paro. Paro frente à página em branco, virtual, como paro frente à vida que descontinuo no acto de encetar um passo novo, um novo passo, um de cada vez, à procura de consciência, lucidez de vida, consistência.
Acendo a crença, a convicção.
Só se faz vida, vivendo.
Só se caminha, caminhando!
O medo e eu, porque não?
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6 respostas a O ecrã

  1. Pu-Jie diz:

    Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo.

    • Concordo consigo… mas o medo muitas vezes é muito mais extenso e desconhecido do que julgamos. Tantas formas de medo… tantos medos… e que pena!… tanto em nós para descobrir, enfrentar, assumir! Mas que nesta nossa vontade de crescer, enquanto tivermos consciência de nós… que os identifiquemos, reconheçamos e lutemos por ultrapassá-los.
      Com sincera humildade, Manuel, tenho tanto ainda para aprender e tanto para enfrentar!
      Mas que vençamos o ridículo, sim. Estou consigo!!!
      Obrigada por vir aqui eestar sempre tão disponível a dar o seu honesto parecer
      Isabel

  2. João Nuno diz:

    Querida Isabel,
    às vezes apetece-me caminhar com passinhos de lã, talvez a tentar que o tempo me acompanhe. Que avance quando ando vais rápido; que se canse quando abrando o passo. Ilusão idiota, obviamente. E não, o tempo não somos nós que o fazemos. O tempo às vezes é duro, é triste, é mau, é subtil. Outras, quiçá nas entranhas mais sórdidas de dias menores, é uma acumulação de bem-estar e de sonhos. Deambulamos pela vida como se de uma avenida de árvores sedentas se tratasse.
    Outras tantas alturas, minha amiga Isabel, sentimo-nos próximos dos outros apenas pelas palavras. Até ao dia em que Deus queira.
    Com a simples certeza de que o tempo nos ensina. E é assim que se cresce. Quase que me apetece dizer…”diabos”…crescer cansa! Mas também alcança!
    Um beijo, com os sentidos

    • João Nuno
      …por mais que por vezes possa cansar… “crescer” é simplesmente maravilhoso!
      beijinho contente por “revê-lo”
      Isabel

      • zilda cardoso diz:

        Ontem ouvi numa entrevista na televisão, um cantor e compositor muito conhecido dizer que em certa altura da sua carreira pensou – e se me faltar a inspiração? Anos depois conclui que isso nunca vai acontecer. O que é preciso, diz ele, é trabalhar, a inspiração vem.
        O ecran vazio será estimulante, o papel branco igualmente, o mundo em redor… do mesmo modo.
        Só é preciso estar atento, parar para ver, ou ver com vagar. E reflectir… que é o que a Isabel sabe fazer muito bem.

      • …acredito na inspiração… apesar de achar que, sem trabalho, muito trabalho, não se chega a lado nenhum. Nada se consegue bem feito sem esforço.
        Às vezes temo que a inspiração falhe. E não vem só porque queremos e no momento que queremos. Mas se se trabalhar, também acredito que a inspiração possa vir. Ou acabe por vir.
        A atenção também nem sempre é fácil. Às vezes há tanto ruído!…

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