Lusco-fusco

Saio para o lusco-fusco.
À procura de uma aragem que me retempere, enquanto caminho reverbera-se em mim o silêncio dos muros dos jardins abandonados.
Escuto o restolhar leve da erva seca por detrás desses muros e mais o segredo esquecido do espaço em pousio, ali circunscrito. Espera de valorização transaccional para mais edifícios.
Misturam-se ao som leve dos meus passos citadinos, calçados nuns ténis macios e finos, o bafo morno emanado pelas paredes dos prédios do outro lado da rua.
Janelas enfileiradas, entreabertas, sorvem o fresco que fui procurar. São as casas sequiosas, a pulsar de gente dissolvida no seu interior, mergulhadas cada uma no seu mundo cheio de direitos e avessos, a esconderem-se na noite que espreita, a despirem-se na esperança de arrefecer ânimos desconhecidos.
E os meus passos continuam.
Os sentidos à espreita, sentem as pedras da calçada, desencontradas, irregulares, a lembrarem-me os pés que caminham.
A alma, flutua.
Há fresco sim.
Mesmo sorvido com ânsia por tantos que, para mim escondidos, desejam esse retempero, nasce do meu andar uma espécie de vento ameno.
A pele arrepia-se, inconsciente no gesto automático de regulação. O coração pulsa, progressivamente acelerado apesar dos passos lentos. Propulsão de um corpo que se faz pesado no cansaço inusitado.
E o vento que se faz mais fresco dobrada a esquina da rua, liberto de paredes e muros, como refrega impulsiona-me no caminho que se afunila na lonjura que o olhar alcança.
Passa um cão. Saltita, dono de si mesmo. Segue a direcção olfactiva e o som longínquo e apelativo que outro cão emite e ecoa na rua alargada.
Passam carros, esporádicos. Trepida o chão, inquieto no som que subitamente se rasga.
Fez-se noite ainda temperada de luz, esquecida e entrecortada na linha quebrada do horizonte.
Ao longe, árvores ladeiam a avenida. Árvores pequenas, folhas miúdas, brincam nos passeios impregnando-os de frutos que ninguém ousa tirar. Respeitoso cumprimento de uma lei que ninguém sabe mas todos cumprem. Desmazelo duma natureza nascida em poços da calçada.
Cheira a verde por momentos. Cheira ao ar lavado pela luz escondida, pela noite nascida.
O tempo passa, como os passos.
Tento não deixar o pensamento fugir para o dia. Centro-me nos passos, na calçada, nos sons reverberados, nos cheiros que se injectam nos meus sentidos despertos, acordados que se sucedem ritmados, cada vez mais rápidos.
Cedo ao gesto de olhar o relógio. Quebra involuntária. Consciencializo-me que não vejo horas e que o tempo passa como os passos.
Ao ritmo da ampulheta fez-se escuro.
Olhos cansados na meia-idade pedem lentes.
Surge a tentação dos sentidos para a razão, a perder a noção primeira do espaço, da natureza a brotar teimosa e imensa, entre betão…
…e porque se faz tarde e amanhã a hora é certa no erguer obrigatório para o trabalho, regresso a casa… e na lembrança, estas palavras.
 
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10 respostas a Lusco-fusco

  1. Pedro diz:

    Sai para o lusco fusco.
    Leva quem mais gostas.
    Faz o que te deixa feliz.
    Refresca-te nas poças com a inocência de uma criança.
    Aproveita todos os direitos e avessos de cada pessoa, com eles também crescemos.
    Esquece a ansiedade e pressão do dia e descansa a cabeça, esta lassidão impede a absorção da energia que que roda, a visão do que está à tua volta, o amor pelo próximo, a percepção dos sentidos e a valorização do self.
    Não existe relógio que meça o tempo que realmente importa, o tempo está dentro de ti e passa consoante o que tu sentes.
    Entre a razão, os sentidos e estas palavras, volta para casa e escreve outro post lindo como este.

    • Pedro
      Surpreendes-me mais e mais. E comovo-me com o que vou descobrindo em ti, a cada dia.
      Ontem, o poema daquele grupo islandês de que tanto gostas e que encaixaste como reforço ao meu “começo”.
      Hoje, as tuas palavras articuladas nas minhas, a dar-lhes a tua sequência, sentido e direcção.
      Do filme, sei que o que me fez sentir, me leva a pegar-lhe um destes dias e fazer dele a base de um post, se não te importares. Verás depois o quanto faz sentido para reflexão de tantos, muitos deles, na nossa profissão.
      Agora, muitas palavras mais deixavam de ter sentido aqui… excepto, obrigado, uma vez mais.
      Força jovem. Continua!

    • Olá Pedro,

      Gostei muito.

      Daqui lhe respondo como nas “desgarradas” em que se deixa no ar um verso para o outro responder ou completar…só que aqui faltam guitarras e não se canta o fado, mas passeia-se na vida.

      Venus flies at dawn
      Soft winds start blowing
      Petals to the ground.

      • Pedro diz:

        That same living warm ground
        Where everything comes to life
        And buries death in cold brown

  2. Manuel diz:

    Being walkers with the sun and morning,
    We are not afraid of night,
    Nor days of gloom,
    Nor darkness.

  3. Pedro diz:

    Leaving home first time at daen
    The sunbeam forces our eyes to shut.
    We rub our eyes and look down
    but when we look up we realize
    how wonderfukll live is when we’re alive!

    • Meu querido amigo…
      …se pudesse transmitir a força da crença nessas palavras
      a beleza e o sentido da vida
      a importância de sorvermos, degustarmos e aproveitarmos tudo quanto ela nos dá…
      assim, nesta resposta curta, sabendo que lês muito para além das palavras e me vais conhecendo mais e mais,
      apenas repito, então, com a fé de quem quer…
      …”how wonderfull live is when we’re alive”
      obrigada

    • Manuel diz:

      Do not assume meanings hidden from you:
      the best poems mean what they say and say it.

      To read poetry requires only courage
      enough to leap from the edge and trust.

      Poetry demands surrender,
      language saying what is true,
      doing holy things to the ordinary.

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